quarta-feira, julho 19, 2017

"L'intéressant, c'est tout ce à quoi on s'intéresse de façon désintéressée. C'est un moteur très puissant !"

cerca de 10 anos atrás, lia com um entusiasmo hoje envelhecido:
"De fato, a história está cheia de possibilidades abortadas, de acontecimentos que não tiveram lugar; ninguém será historiador se não sentir, em torno da história que se produziu realmente uma multidão infinita de histórias possíveis, de 'coisas que poderiam ser de outra maneira'."
muitas coisas que poderiam ter sido, daqui a 50 anos, sangraram até morrer, em questão de meses.
é interessante interessar-se novamente pelas velhas leituras.

vida longa ao Paul Veyne!

quarta-feira, julho 02, 2014

a noite (09/08/2008)


até que ponto pode-se ir, contando que ainda seja viável voltar?

a noite me conforta. mas ela me diz que continuo fazendo a mesma coisa dia após dia.

dormindo às duas, acordando às seis.


até que ponto pode-se ir, contando que ainda seja viável voltar?

de corpos e tormentos


pode ser que eu tenha nascido com um corpo atormentado, ilusório como a imensa montanha; mas é um corpo cujas obsessões servem para alguma coisa; e percebi, na montanha, para que serve a obsessão de contar. não houve sombra que eu deixasse de contar ao vê-la dando voltas ao redor de alguma coisa; e muitas vezes foi somando sombras que cheguei até estranhos lugares. vi, na montanha, um homem nu debruçado numa grande janela. sua cabeça era apenas um buraco, uma espécie de cavidade circular na qual, conforme a hora, aparecia o sol ou a lua. seu braço direito estendia-se como uma barra, o esquerdo também era uma barra, mas mergulhado em sombras e dobrado.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

dos consolos ao amor

eu já namorei um cilíndro de armazenar temperos. durante anos ele foi meu único amor. nos amávamos loucamente e éramos felizes, até. ele sempre me pedia para usar camisinha, pois temia pela minha segurança. mas durante uma de nossas crises aconteceu algo que fez meu chão desabar. cheguei em casa e tirei ele da mesmice. fizemos amor selvagem. gozamos muito. acendi um cigarro e após a primeira tragada ele me disse que iria embora. engasguei. em seguida lhe disse que estava louco. ele respondeu que estava cansado. que não aguentava mais e que queria seguir com uns músicos que conhecera. juntou um punhado de arroz, colocou dentro de si e fechou-se. disse que iria ser percussionista e que viajaria com seu grupo de amigos hippies. não pude nem fazer parte daquela decisão. ela já estava tomada. me afundei em uma profunda tristeza e após isso só encontrei sexo fortuito, mas nada me fazia sentir bem. depois de passar por essa barra, namorei uma cenoura suicida. um dia quando cheguei em casa ela havia se refogado e levado consigo um punhado de cebola e brócolis. eu a comi com ódio! teve também uma chave de fenda orgulhosa, que me deixou quando um bombeiro veio fazer um serviço na pia da cozinha. hoje, após tantas desilusões, estou casado com um plug de silicone. às vezes ele me faz umas surpresas, me esperando no banheiro com presentes e declarações. a gente até já fez algumas trocas de casais e nos sentimos muito realizados com nossa relação. conversamos todas as noites sobre nossos desejos e sonhos e buscamos realizá-los juntos. acho que encontrei o amor verdadeiro.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

"e se a humanidade perecer um dia sob os efeitos de bombas de hidrogênio, recuso-me a chamar isso de tragédia. chamo de imbecilidade."




não há nada de inevitável no problema da fome mundial, nas mortes em acidentes de trânsito, nas mortes e perdas materiais causadas pelas enchentes, na violência policial, no descaso com os sistemas escolares de ensino, nas cracolândias, nas câmeras de vigilância urbana, nas catracas nossas de cada dia, no transporte coletivo sucateado, no elevado preço dos alimentos, na coisificação e escravização dos animais humanos e não-humanos, no consumismo, nas fronteiras agrícolas e suas devastações de fauna e flora, na "mineiridade", nessa famigerada "condição humana". trata-se unica e puramente de imbecilidade...

segunda-feira, outubro 03, 2011

de aparições e esperanças

muitas profecias já circulavam a seu respeito. diziam que não mais iria voltar. alguns reafirmavam velhas histórias sobre suas diversas formas e muitos já estavam desacreditados. mesmo assim, boatos sobre sua aparição circulavam em diversos meios sociais. alguns ficavam de vigília para ver sua chegada, só que ninguém podia comprovar nada. muitos vezes o que se podia ver eram cinzas espalhadas no ar, que circulavam com muita dificuldade. mas numa madrugada quente, quando corpos suavam e rolavam entre os lençóis, alguma coisa irrompeu no céu. mal o relógio marcava 4 horas e de repente tudo ruiu. o céu desabou em água durante 12 horas e a cidade, após meses de delírios, se recompôs. o cheiro do asfalto molhado agora era a conversa de todas as rodas, pois a terra ainda era para poucos. duas semanas depois, um boato de que a chuva não mais iria parar circulava entre bares e conversas de trabalho. ninguém mais suportava a falta de ar dentro dos coletivos. de alguma forma, antigas profecias refaziam-se a seu respeito. e todos ansiavam pela chegada de um horizonte cheio de esperanças. mas esses sonhos estavam, de alguma forma, inacessíveis. e permaneceriam assim por muito tempo...

segunda-feira, setembro 26, 2011

NA POLÍCIA E NAS RUAS

26-06-1928

BEBIAM PARA ESQUECER AS MÁGOAS
É a eterna desculpa de sempre...
Um cavalheiro qualquer, porque não acertou na “centena”, não foi feliz em negócios, ou não é correspondido pela dona dos seus cismares, entende de consolar as mágoas em repetidas cálices de parati...
Ontem quando tentavam esquecer as agruras da vida num botequim da Barroca, os nacionais Raymundo Cosme e Maria Lourença, tornaram-se inconvenientes e começaram a ameaçar céus e terra, sendo por isso recolhidos ao xadrez da delegacia do terceiro distrito.

DO SALÃO DE BAILE PARA O XADREZ...
Promover um baile nesta capital não é, como muita gente supõe, uma coisa simples e sem formalidades. É preciso o consentimento da polícia...
Ignorando essa particularidade, alguns moradores da Barroca comemoravam, com uma festança de sucesso, a noite de S. João, quando a polícia invadiu inesperadamente a casa onde se realizava a “função” e prendeu os seus promotores, que pernoitaram na terceira delegacia.

NEM COM UMA FLOR, “SEU” ALFREDO...
A escolha do título é uma das torturas da vida do repórter.
Este “nem com uma flor” é velho, já está grisalho pelo uso de todos os dias...
Porém, para um cavalheiro, pelos menos esse “cliché” constitui novidade.
Trata-se de um Alfredo S. Horta, que além de espancar a Mathilde Soares Ferreira, vive ainda a ameaçá-la de morte.
Mathilde pediu providencias ao dr. Mariano Sales, delegado do terceiro distrito.

AS DOÇURAS DO LAR...
Como seu marido,Joaquim Bruno, além de espancá-la ainda vive a ameaçá-la de morte, Maria Jacinhta foi queixar-se às autoridades do terceiro distrito.

SAIU “À FRANCESA...”
Rosalina Alves, residente na Pedreira Prado Lopes, foi ontem à delegacia do distrito apresentar queixa contra o seu ex-inquilino Octavio de Britto, que não lhe quer pagar alguns meses de aluguel de casa que lhe deve.

quarta-feira, julho 27, 2011

dicertando

"a escrita não fala do passado senão para enterrá-lo. ela é um túmulo no duplo sentido de que, através do mesmo texto, ela honra e elimina."

terça-feira, julho 26, 2011

eu não sei se isso é delírio ou mera vertigem

ando dias a fio
pensando em palavras que não me
deixam mais
pensar que elas estão junto a mim.
assim, esqueço o que elas querem,
o que elas podem
o que elas jamais vão
significar.
me entrego a um trabalho
ou deito meu olhar na tela branca
observando resquícios do que não é tão torpe quanto o que nos rodeia.
se já não durmo de menos, como antes,
pelo menos passo a noite a imaginar
como seria se fosse da mesma forma,
se o retorno não passasse mais a ser um torno em volta de si mesmo.
ando dias a fio afiando as palavras
para que elas desapareçam
e não me matem como o frio que arranca o último suspiro de animais urbanos
tão humanizados quanto o escarro que escorre da boca de uma criança trabalhando em uma plantação de café.

segunda-feira, julho 04, 2011

elegia para Helena

sei que andas a me observar. gosto do sentimento que isso me traz. sempre há coisas para se mostrar. mesmo aquilo que não a satisfaz. você aparece calada e eu esqueço dos seus olhos sobre mim. até vejo-me rimando assim, de uma forma desengonçada.
mas quando lembro de teu olhar, arrepio só de pensar, que de tempos em tempos sobre mim ele vai pousar.
oh Helena, siga brilhando entre os exílios da emoção,
enquanto fico a enterrar-me nas fissuras da desrazão.

sábado, maio 07, 2011

tentando encontrar um caminho para a saída

e foi assim que ela saiu. sem olhar para trás, sem dizer nada, sem demonstrar que existiria um próximo encontro. afinal, não havia mais nada para dizer. já não fazia diferença nenhuma dizer ou não dizer. era como se já tivesse dito tudo, ao não dizer nada. nem aquele olhar tagarela que ela lançava, nem um discurso verborrágico que seu corpo costumava enunciar. nada. não havia nada para ser dito e nada foi dito. ficamos lá esperando o sereno da noite chegar ou alguma boa desculpa para nos tirar do lugar e para nos mover um pouco. havíamos desistido de qualquer coisa há tempos e as pessoas cansavam-se disso. queríamos ter o direito de desistir. e foi o que fizemos. mas depois ela desistiu de desistir. não havia o que dizer para seguir adiante. o recomeço era algo muito mais doloroso do que a viagem que fizemos para abandonar tudo. mas tudo já havia sido dito sobre isso. o exercício do silêncio nos fez dizer tudo sobre tudo. e talvez isso tenha feito ela desistir de desistir e desejar voltar ao desenrolar cotidiano de sua antiga vida. mas ela já não era a mesma, nem aquela que ainda não queria desistir da sua vida normal, nem aquela que resistiu e abriu outros caminhos para sua vida, desistindo de tudo. ao desistir de desistir, ela lutou contra seu pior inimigo: contra si própria. ela teve de se matar para poder viver outra vez, de outra forma. e foi assim que ela simplesmente saiu.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

que mundo?

cirino acabara de entrar em seu trabalho para fechar o ano. era a última aula que ele iria lecionar. daquelas que todos os estudantes ficam constrangidos diante uns dos outros e do professor, ao realizar-se uma avaliação oral do curso. que, em sua maioria, começa com um rol de elogios seguidos de alguns 'poréns' e fechando com positivos 'mesmo assim...". mas ele não chegou para sua aula. foi atingido por um tiro na cabeça, por um de seus alunos. muitos se perguntaram: 'em que mundo vivemos? como pode?' num tom apocalíptico muito caro em momentos de desespero, como esse. outros tentavam relembrar que, mesmo assim, há aqueles que querem continuar, quem tem esperanças, que seguem fazendo coisas boas. e que cirino iria gostar se déssemos continuidade aos trabalhos iniciados por ele, típica reação de quem não quer ser obrigado a desistir.
mas tereza, sentido seu peito destroçado, simplesmente comentou baixinho que esse mundo é um eterno entrelaçamento entre aquilo que fizeram de nós e aquilo que seguimos a fazer de nós mesmos.
nisso, uma lágrima, que seguiu rasgando tudo que encontrava pelo caminho, escorreu.

domingo, dezembro 05, 2010

the laughing heart

your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.

C.B.

sexta-feira, novembro 05, 2010

angustias oníricas

estávamos em viagem. parecíamos andar sem destino fixo. passávamos de cidade em cidade, hospedando-nos em hotéis e casas abandonadas. assim que saímos da última parada senti que faltava algo. mas não sabia o que. havia esquecido minhas coisas num hotel. uma sacola com alguma coisa para vestir, ler e beber. só me dei conta quando chegamos na nossa próxima morada temporária. falei com quem dirigia o ônibus que tinha perdido minhas coisas e ele disse que eu conseguiria encontrar. adentrei prédio adentro e fiz o reconhecimento do ambiente. me acomodei em um quarto. minha mãe estava lá, e mais algumas pessoas. uma televisão estava ligada e as pessoas assistiam a um filme. enquanto isso procurava como um louco. mas não encontrava as coisas. passei a vasculhar todo o prédio, que mais parecia uma construção literária de machado ou azevedo. tava mais para um cortiço, ou cenas do kusturica. ora chão batido, ora terra e cimento. com armários cheios de utensílios e com poucos mantimentos. luzes vermelhas e amarronzadas. entrei num corredor que me conduziu até um aposento escuro. numa das paredes havia uma janela e um caixote que servia de calço para olhar a abertura da janela. era do tamanho de uma cabeça. e dava para uma sala escura, mas com luzes azuis que pareciam se emanar de uma outra televisão. olhei a televisão e passava um filme. numa das três camas, que estava logo abaixo da pequena janela, estava meu avô, que já havia falecido. ele estava dormindo, mas acordou e ficou ali com um sorriso no rosto. sai a procura de meu tio, que era, na verdade, o motorista do ônibus. ele estava numa cama com uma mulher. pediu para que eu acendesse a luz. relutei. eles insistiram. acendi. expliquei que não encontrava minhas coisas e que tinha deixado na última parada. ligamos para o dono do lugar e ele ficou de guardar para nós. algum dia, quando passássemos de novo pela cidade, pegaríamos tudo. fiquei muito aliviado. acordei querendo tomar um café.

domingo, outubro 24, 2010

quando escrever é fazer-se...

quando escrevo não escrevo o que eu sou. por mais profundo que o texto seja ele nunca dá conta da nossa condição de epitélio. (é que a simplicidade é muito mais complexa do que possamos pensar.) na verdade o escrito é que nos dá possibilidades de ser. nos fazemos com ele e nele. depois nos refazemos, pois um texto não consegue lidar inteiramente com almas e corpos - que mais parecem papéis, que podem ser dobrados e desdobrados. quando escrevo não falo de mim. falo comigo. com você, ou você, talvez até mesmo com você. mas nunca de mim, inteiramente. e sim, daquilo que penso ser, que quero ser, inclusive daquilo que quero distância, que quero me desfazer. escrevo para machucar. pois ao mesmo tempo que o texto procura cicatrizar as feridas, outras tantas armas são dadas, nesse e por esse mesmo texto, para que mais feridas se abram. as criaturas que surgem do ato de escrever sou eu e é o texto. mas é preciso lembrar que ser não é eterno. que ser não é essência. e que escrever é sempre re-criação. sempre uma ação de repetir. repetir para que as cousas possam se tornar diferentes, como me ensinou uma criança na sua segunda infância. por isso o que escrevo não sou eu. não escrevo o que sou.

os esporos se abriram com a amoreira

uma amoreira linda
caminhou 719 km
e deu flores aqui,
perto do meu peito.

seu sorriso era contagiante
e seu cheiro se espalhava
por todo meu corpo.

explodi de tesão e amor.
lancei esporos nos ares
e me infiltrei no solo,
no seu tronco
e na parede do banheiro.

a amoreira cheirosa
continuou sua andança,
deixando rastros de amor.

e eu me expandi,
ao me fragmentar.
estou aqui,
mas também junto dela.

segunda-feira, outubro 18, 2010

de cruzamento dos caminhos

foram seis anos de olhares cruzados. seis anos de 'olá como vai?'. seis anos de interesses em comum. seis anos errando em diferentes caminhos. seis anos de tensões. seis anos sem se tocarem. e de seis anos de desejos ludibriados, quando os caminhos se cruzaram. uma explosão. um frio na barriga. uma combinação entre peles e cabelos. uma falta de sangue no pênis. um turbilhão de dedos nos corpos. um excesso de sangue no pênis. um emaranhado de línguas e suores. um tempo de orgasmos. sem sacralização. sem pressão. com carinho. com tesão. e nada mais.

domingo, outubro 17, 2010

de desvios dos devires

aconteceu que quase tudo desacontecia, e de tanta coisa que podia ser mas não era, muito desaconteceu durante sua acontecência, era mais desacontecimentos que acontecimentos, e então passou a viver um pouco de cada desacontecimento de que tomava nota, desfizera-se em meio aos conflitos de outrora, desacontecendo-se, e passara a acontecer de outra forma, sentiu, subitamente, saudade de seus antigos acontecimentos e tentou retornar, mas perdera toda referência no meio dos caminhos, e já vagava sem memória alguma daquilo que já tinha acontecido e daquilo que tinha desacontecido, se acostumou a viver o que estava acontecendo e tentava fazer acontecer aquilo que sonhava para suas novas aventuras.

domingo, janeiro 17, 2010

fragmentos

II
ela chegava em casa de manhã cedo, tirava a blusa a deixava no canto do seu quarto e preparava um café forte. ainda dava tempo de tomar o café conferindo as correspondências que pegava na portaria antes de tomar uma ducha. era sempre uma ducha fria e rápida. ela costumava dormir depois disso até duas horas. mas naquele dia tinha um compromisso às três. ela havia marcado de passar o som com o convidado especial da noite em uma das casas noturnas em que trabalhava. na verdade era mais para fazer um social. levar o cara para conhecer a casa, depois uns drinks e talvez alguma coisa sólida para colocar no estômago. ela sentia falta de sua companhia, que havia lhe deixado há alguns meses. mas as coisas já estavam se ajeitando. ainda havia vestígios das últimas horas de prazer e tesão em sua cama. uma blusa esquecida e a mistura do perfume das amantes. ela conseguiu lembrar um pouco desses momentos e cochilou. acordou atrasada, porque ainda tinha que atravessar a cidade para receber o seu parceiro de trabalho. correu para pegar o ônibus e ocupou com destreza a última vaga naquele enlatado humano. com o tempo os usuários desse transporte desenvolvem uma espécie de mucosa nas roupas que os fazem escorregar por entre os corpos ocupando um microespaço, por vezes pouco ventilados, até seu destino final. conseguiu, enfim, chegar na casa noturna e cumpriu seu papel de anfitriã até o início da festa. ela era boa nisso, apesar de não gostar da idéia de ter que ser o guia da vez. mas ela sabia se entreter com as pessoas e gostava de lidar com elas. o trabalho foi calmo, com surpresas musicais interessantes, mas nada de excepcional. ela conheceu uma garota interessante, com quem trocou contatos. mas ela voltou para casa sozinha. tirou a blusa e tomou uma xícara de café. pensou consigo mesma que poderia ligar para sua antiga companheira, mas sabia que era estupidez. guardou essa idéia no seu baú de lembranças e, então, tomou uma ducha e se deitou.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

fragmentos

I
um estouro saiu da casa de taiane no momento exato em que o relógio virou o dia. naquela ocasião era festa e ninguém deu bola para o estouro de taiane. centenas de estouros invadiram o céu com brilhos e sons variados. mas o estouro oriundo da casa de taiane reverberou um único som e uma única cor. à meia-noite e três minutos rachel deixou aquele mausoléu temporário. e logo se encontrava num bar, solitária, bebendo enquanto todos a sua volta cantavam a esperançosa chegada de mais um ano. para ela o ano não era uma medida tão importante do tempo. ela preferia os segundos. afinal, essa medida decidiu a vida de todas as pessoas que ela havia executado. ela não vacilava, por assim dizer, mas fixava os olhos em cada pessoa antes de cumprir seu serviço. talvez esperando que algum ato da pessoa a fizesse desistir, ou que a pessoa reagisse e a matasse antes, mas isso nunca aconteceu. na verdade era o momento de sua crise, que durava até o último dos três copos de whisky que tomava para se acalmar após o trabalho. depois disso ela voltava a caminhar. ela sabia que um dia iria chegar a vez dela. assassinos profissionais não duram muito nos dias de hoje e ela já estava há tempos no mercado. já era quase duas horas quando ela abriu a porta do quarto alugado. deitou-se e, como sempre, dormiu um sono profundo sem pensar nos próximos passos que daria. simplesmente descansou.