quarta-feira, julho 02, 2014

a noite (09/08/2008)


até que ponto pode-se ir, contando que ainda seja viável voltar?

a noite me conforta. mas ela me diz que continuo fazendo a mesma coisa dia após dia.

dormindo às duas, acordando às seis.


até que ponto pode-se ir, contando que ainda seja viável voltar?

de corpos e tormentos


pode ser que eu tenha nascido com um corpo atormentado, ilusório como a imensa montanha; mas é um corpo cujas obsessões servem para alguma coisa; e percebi, na montanha, para que serve a obsessão de contar. não houve sombra que eu deixasse de contar ao vê-la dando voltas ao redor de alguma coisa; e muitas vezes foi somando sombras que cheguei até estranhos lugares. vi, na montanha, um homem nu debruçado numa grande janela. sua cabeça era apenas um buraco, uma espécie de cavidade circular na qual, conforme a hora, aparecia o sol ou a lua. seu braço direito estendia-se como uma barra, o esquerdo também era uma barra, mas mergulhado em sombras e dobrado.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

dos consolos ao amor

eu já namorei um cilíndro de armazenar temperos. durante anos ele foi meu único amor. nos amávamos loucamente e éramos felizes, até. ele sempre me pedia para usar camisinha, pois temia pela minha segurança. mas durante uma de nossas crises aconteceu algo que fez meu chão desabar. cheguei em casa e tirei ele da mesmice. fizemos amor selvagem. gozamos muito. acendi um cigarro e após a primeira tragada ele me disse que iria embora. engasguei. em seguida lhe disse que estava louco. ele respondeu que estava cansado. que não aguentava mais e que queria seguir com uns músicos que conhecera. juntou um punhado de arroz, colocou dentro de si e fechou-se. disse que iria ser percussionista e que viajaria com seu grupo de amigos hippies. não pude nem fazer parte daquela decisão. ela já estava tomada. me afundei em uma profunda tristeza e após isso só encontrei sexo fortuito, mas nada me fazia sentir bem. depois de passar por essa barra, namorei uma cenoura suicida. um dia quando cheguei em casa ela havia se refogado e levado consigo um punhado de cebola e brócolis. eu a comi com ódio! teve também uma chave de fenda orgulhosa, que me deixou quando um bombeiro veio fazer um serviço na pia da cozinha. hoje, após tantas desilusões, estou casado com um plug de silicone. às vezes ele me faz umas surpresas, me esperando no banheiro com presentes e declarações. a gente até já fez algumas trocas de casais e nos sentimos muito realizados com nossa relação. conversamos todas as noites sobre nossos desejos e sonhos e buscamos realizá-los juntos. acho que encontrei o amor verdadeiro.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

"e se a humanidade perecer um dia sob os efeitos de bombas de hidrogênio, recuso-me a chamar isso de tragédia. chamo de imbecilidade."




não há nada de inevitável no problema da fome mundial, nas mortes em acidentes de trânsito, nas mortes e perdas materiais causadas pelas enchentes, na violência policial, no descaso com os sistemas escolares de ensino, nas cracolândias, nas câmeras de vigilância urbana, nas catracas nossas de cada dia, no transporte coletivo sucateado, no elevado preço dos alimentos, na coisificação e escravização dos animais humanos e não-humanos, no consumismo, nas fronteiras agrícolas e suas devastações de fauna e flora, na "mineiridade", nessa famigerada "condição humana". trata-se unica e puramente de imbecilidade...

segunda-feira, outubro 03, 2011

de aparições e esperanças

muitas profecias já circulavam a seu respeito. diziam que não mais iria voltar. alguns reafirmavam velhas histórias sobre suas diversas formas e muitos já estavam desacreditados. mesmo assim, boatos sobre sua aparição circulavam em diversos meios sociais. alguns ficavam de vigília para ver sua chegada, só que ninguém podia comprovar nada. muitos vezes o que se podia ver eram cinzas espalhadas no ar, que circulavam com muita dificuldade. mas numa madrugada quente, quando corpos suavam e rolavam entre os lençóis, alguma coisa irrompeu no céu. mal o relógio marcava 4 horas e de repente tudo ruiu. o céu desabou em água durante 12 horas e a cidade, após meses de delírios, se recompôs. o cheiro do asfalto molhado agora era a conversa de todas as rodas, pois a terra ainda era para poucos. duas semanas depois, um boato de que a chuva não mais iria parar circulava entre bares e conversas de trabalho. ninguém mais suportava a falta de ar dentro dos coletivos. de alguma forma, antigas profecias refaziam-se a seu respeito. e todos ansiavam pela chegada de um horizonte cheio de esperanças. mas esses sonhos estavam, de alguma forma, inacessíveis. e permaneceriam assim por muito tempo...

segunda-feira, setembro 26, 2011

NA POLÍCIA E NAS RUAS

26-06-1928

BEBIAM PARA ESQUECER AS MÁGOAS
É a eterna desculpa de sempre...
Um cavalheiro qualquer, porque não acertou na “centena”, não foi feliz em negócios, ou não é correspondido pela dona dos seus cismares, entende de consolar as mágoas em repetidas cálices de parati...
Ontem quando tentavam esquecer as agruras da vida num botequim da Barroca, os nacionais Raymundo Cosme e Maria Lourença, tornaram-se inconvenientes e começaram a ameaçar céus e terra, sendo por isso recolhidos ao xadrez da delegacia do terceiro distrito.

DO SALÃO DE BAILE PARA O XADREZ...
Promover um baile nesta capital não é, como muita gente supõe, uma coisa simples e sem formalidades. É preciso o consentimento da polícia...
Ignorando essa particularidade, alguns moradores da Barroca comemoravam, com uma festança de sucesso, a noite de S. João, quando a polícia invadiu inesperadamente a casa onde se realizava a “função” e prendeu os seus promotores, que pernoitaram na terceira delegacia.

NEM COM UMA FLOR, “SEU” ALFREDO...
A escolha do título é uma das torturas da vida do repórter.
Este “nem com uma flor” é velho, já está grisalho pelo uso de todos os dias...
Porém, para um cavalheiro, pelos menos esse “cliché” constitui novidade.
Trata-se de um Alfredo S. Horta, que além de espancar a Mathilde Soares Ferreira, vive ainda a ameaçá-la de morte.
Mathilde pediu providencias ao dr. Mariano Sales, delegado do terceiro distrito.

AS DOÇURAS DO LAR...
Como seu marido,Joaquim Bruno, além de espancá-la ainda vive a ameaçá-la de morte, Maria Jacinhta foi queixar-se às autoridades do terceiro distrito.

SAIU “À FRANCESA...”
Rosalina Alves, residente na Pedreira Prado Lopes, foi ontem à delegacia do distrito apresentar queixa contra o seu ex-inquilino Octavio de Britto, que não lhe quer pagar alguns meses de aluguel de casa que lhe deve.

quarta-feira, julho 27, 2011

dicertando

"a escrita não fala do passado senão para enterrá-lo. ela é um túmulo no duplo sentido de que, através do mesmo texto, ela honra e elimina."

terça-feira, julho 26, 2011

eu não sei se isso é delírio ou mera vertigem

ando dias a fio
pensando em palavras que não me
deixam mais
pensar que elas estão junto a mim.
assim, esqueço o que elas querem,
o que elas podem
o que elas jamais vão
significar.
me entrego a um trabalho
ou deito meu olhar na tela branca
observando resquícios do que não é tão torpe quanto o que nos rodeia.
se já não durmo de menos, como antes,
pelo menos passo a noite a imaginar
como seria se fosse da mesma forma,
se o retorno não passasse mais a ser um torno em volta de si mesmo.
ando dias a fio afiando as palavras
para que elas desapareçam
e não me matem como o frio que arranca o último suspiro de animais urbanos
tão humanizados quanto o escarro que escorre da boca de uma criança trabalhando em uma plantação de café.