terça-feira, março 17, 2009

confissões de uma criança. ou quando me vestia de mulher

uma criança. aos 14. um diálogo. uma inquietação.
"mas se a pessoa coloca-se a dúvida se ela é ou não. ela já é", disse sua amiga.
a criança se cala. se põe a pensar. "não haveria outra forma de colocar a questão? seria essa a única maneira de compreender a situação? ou melhor, a única forma possível de imaginar essas relações? ser ou não ser? e se o caso, ou ainda, o ponto central do problema fosse outro? e se fosse do verbo estar?" os franceses não captariam logo a diferença. mas ela mudaria todo o jogo. se, ao invés, de 'ser' a pessoa 'estivesse' em tal ou tal posição, com tal ou tal disposição, de tal ou tal maneira, as coisas teriam aí uma outra perspectiva. os pontos de fuga poderiam multiplicar-se. e as centelhas espalhar-se-iam à deriva pelos espaços dos platôs, em constante interação. "a coisa não poderia ser tão fechada assim", ele pensava. se assim fosse, ele seria sempre um entra e sai de 'seres', que desapareceriam, ou cristarizariam em sua imagem, em seu corpo. não era isso que ele 'era'. se tivesse que usar o verbo ser, ele optaria por introduzí-lo em uma única proposição: sou uma constante etapa de 'estâncias', um colóquio infinito de 'estares' em relação aos territórios que ocupo, conquisto, reformo, transpasso, ignoro, desfaço, construo e abandono.
se 'tudo' tomasse parte desse infinito diálogo, logo teria de assumir que 'nada' faria parte dele, e tão logo pronunciasse essas palavras ele seria tudo. e o paradoxo 35 estaria, aí, em gestação.
mas a proposta não era ser tudo, ou nada. tampouco estar em tudo. mas, pelo contrário, estar em tudo, todo e qualquer lugar que lhe fosse possível. em lugares e espaços negados, desperdiçados e inutilizados. becos e matos despercebidos seriam alvo de seus estares. corpos nus e cobertos, fechados ou abertos, furados, vazados, coloridos, sujos ou diagramados estariam consigo, em si, e transpassando-o. corpos à deriva, como o seu, inertes, como de sua amiga, seriam as locações de suas estadias, de seus sonhos e planos, de suas experiências e ações. pouco importando a condição dos seres e como eles conduziriam suas vidas. o problema seria menos 'como definir-se nesse mundo desfigurado e opressor?', menos 'decida-se ou te devoro', menos 'é preciso acalmar o espírito nesses tempos sombrios e cruéis", do que "como construir múltiplas frentes de batalhas para a constante reestruturação das fronteiras e dos espaços estacionáveis e, por isso, rotativos. como construir platôs, salas de estares ambulantes, campos de descentralização, e, finalmente, uma ética plural?."

sábado, fevereiro 07, 2009

de carteiras e sapatos

pronto! já peguei o terno do meu irmão. o cabra viajou e deixou a nota da lavanderia para que eu pudesse pegar o dito. peguei. antes passei uma hora procurando minha carteira: 'onde estará aquela sacana? debaixo da cama, no sofá, dentro dos armários, em meio aos livros, no banheiro, junto às roupas para lavar, dentro da máquina?' onde estaria a coisa maldita que proteje documentos e papéis, mais papéis inúteis do que úteis, mas, por vezes tornados necessários. passados sessenta minutos, achei-a no primeiro local procurado. grande começo! hora de partir em busca do terno lavado a seco. foi um suor só. poderiam até me acusar de comparsa da chuva, com tanto líquido esguichando de meus poros. todo aquele sol quente na minha cabeça, que forçou meus aovéolos a trabalharem mais rápido, e meu sangue, concentrado em minhas pernas, a voltar rápido para o coração, faltando-me o ar. mas pronto, peguei, paguei. voltei enchardo de suor, mas o serviço miserável estava feito. agora só faltava provar. bom, a calça é apertada, mas é só para uma noite, a gente faz um sacrifício. o casaco até que ficou na pinta. menos mal. olho pro pé e pronto! vejo-o cabeludo, colorido, e branco. falta-me o sapato. 'caramba! o sapato! preveni-me, pedi a nota da lavanderia com antecedência, e esqueci da porra do sapato. tio, tu calça quanto?' 39. 'pô, não vai caber. será que rola algo na tua casa?' ele foi ver. fico desesperado vasculhando o guarda roupa. bom, claro que não há sapato no meu guarda-roupa. pra que diabos eu iria usar um sapato? "em dias como esses, idiota!" pô, eu sei, mas eu não uso, não tenho, não quero ter. na casa do meu tio fui recebido por latidos estridentes. como eu adoro cachorros.! o bicho ficou me enrrabando no meio da sala, fornicando com minha perna e cheirando minhas bolas. legal! daqui a pouco fico todo molhadinho! entro na casa e calço o primeiro pé do sapato! caramba! o troço ia fuder meu pé, mas mesmo assim obriguei-o a encaixar-se em minha chulapa. a dor foi grande, mas pelo menos eu tentei! é preciso várias tentativas se quiser arrumar um sapato emprestado. bom, depois dessa tromba d'água porreta, que está caindo agora, sairei para comprar. quem sabe, não rola uns baratos por conta da enchente? ou até mesmo alguns espalhados pela avenida! quem sabe?
ô menino, disse minha tia, tenta esse aqui! o troço entrou, e fez meus sustentáculos latejarem.
minha expressão foi justamente o contrário! 'claro que serviu tia! nossa! muito obrigado!' "tem certeza que não tá apertando?" 'claro! absoluta!' o que eu poderia fazer? era minha última chance antes de gastar uma nota com uma coisa que não iria usar! levantei-me e arrebentei meu côco no lustre baixo do quarto de meu primo. vi estrelas. legal! agora tinha dores em duas extremidades do corpo. uma para esquecer a outra! os chineses são bons nessas experiências! que idéia boa essa, não? "e a gravata,? leva essa aqui!" ela parecia seda de cuecas, como disse minha avó, mas era a melhor do mundo naquele momento. faltava-me achar o outro pé da minha meia. ótima busca. roupas para o chão, na cama, viradas e reviradas e nada. é hora de dobrar as peças espalhadas e encarar o sapato com meias grossas. mas será que minha vó não teria uma meia fina? tem meia-calça! disse ela. bom, pelo menos ninguém verá minhas pernas, não haverá muito mal. mas ela encontrou uma soquete antes de decidir-me pela LOBA. beleza, mais uma dívida: pagar a meia destruída da vovó. no fim, tudo certo. vestido, bati com os dedos com toda força no batente da porta, para esquecer-me do pé e segui para a festa. quinze minutos depois da entrada triunfal eu já estava sem paletó, gravata, sapato e com as mangas arriadas, sorrindo feliz para os noivos que passaram pedindo votos dos convidados. valeu o esforço: a noite foi boa junto à minha amada, especialmente após a chuva que tomamos na saída da festa. de uma coisa eu sei: tenho que pensar melhor sobre a idéia de comprar um sapato.

terça-feira, janeiro 20, 2009

pirofagiando em segredo. ou. tão distante da tabacaria que parece próximo dum platô.

hey, eu vou dizer o que eu penso.
mas não pedi sua opinião, jorge.
direi mesmo assim. eu acho isso tudo uma bela merda. uma bela montanha de merda mole.
droga, meu cigarro apagou e eu tenho que ficar te ouvindo dizer besteiras, jorge!
é sério, cara! toda essa baboseira de esperança de um mundo melhor com um presidente negro. o porra do cara é presidente, cê entendeu? presidente. que porra vai mudar, cara?
jorge, as coisas não são assim, as pessoas precisam dessa merda toda. senão, como elas vão sair à noite para pagar pra caras e mulheres lhes darem aquela chupada, que seus maridos e esposas não podem dar?
você é um estúpido, cara! ninguém precisa de presidente nenhum. nem de chupada gostosa. essa merda toda é uma bela sacanagem sustentada por seu alcoolismo.
eu não coloco sua mãe no meio, então respeite minha relação com o álcool, jorge.
ok, tu fica aí enchendo a cabeça de cachaça, enquanto teus filhos comem carangueiros podres que se alimentam da merda produzida na cidade. enquanto eu fico aqui, provando para o mundo que eu não preciso de presidente de porra nenhuma.
jorge, tu tá berrando no meu ouvido! eu tô do teu lado, sacana!
isso! fica fazendo posinha de delicado, seu merda!
caralho, jorge, a rua inteira tá querendo te dar um sopapo!
eu pego é todo mundo no bondage, cara! faço uns enemas e tá limpo!
não comece com suas coisas de tortura!
tortura? porra, os cara te fazem pagar um imposto sobre a tua casa, uma invenção mais idiota e antiga, e tu vem falar que gozar com um pouco de sangue é tortura? tu trabalha como a velha a fiar, sem parar para pensar no que fazes de ti, e dar umazinha que é tortura?
não irrita, jorge, eu tô sem saco, hoje!
porra! tu tá nessa de virar eunuco e nem me chama pra festa?! sacanagem, cara!
jorge, eu te soco hoje!
tu tem que parar de ser um cagalhão. tu fica aí sentado, sem fazer nada, enchendo a cara.
ah, vá se fuder!
é sério, cara! eu mesmo tô aí, tô aqui, tô até na internet! eu faço é muita coisa, cara! fico limpando cadeira com o cu, não.! vou pra luta é armado de palavras.
como que é isso?
bom, os caras começam a me bater e eu fico lá recitando Fernando Pessoa. os cara param de me bater para ouvir os poemas do cara. pô Fernando Pessoa é o cara!
e tu lá sabe um poema de Fernando Pessoa?
saber eu não sei não, mas decorei um, quer ver? : "eu sô é nada, nunca vô sê é nada, não posso querer sê é nada. da parte disso, tenho todo sonho do mundo. Hoje eu tô abobado, como que pensei e achei e esqueci. hoje eu tô é dividido entre a lealdade que devo à tabacaria da esquina, como coisa que é real de fora, e ao sentimendo de que tudo é sonho, como coisa que é real de dentro."
ô jorge, pára, cara!
mas eu tava terminando! ele é grande, mas eu decorei tudo. e quando eu falo as pessoas param de brigar e choram! primeiro elas riem, depois você vê toda a lágrima saindo dos olhos frios e vazios delas.
cê fala essas coisas pra polícia e ela não te bate mais, não?
não! eles ficam sensíveis! imagina, um revolucionário que não pega em armas e sabe de cor uma poesia de Fernando Pessoa!
cara, eu acho que tu precisa é parar com essa birita.
eu não bebo há três dias.
e esse cheiro de cachaça, jorge?
é que fez três dias e eu não aguentei. tomei umas. mas isso não faz de mim um mentiroso, cara! isso tudo é um monte de merda fedida e molinha. o pessoal lá de gaza não ganha muita coisa com esse presidente, não. aliás, nem tu. a não ser esperança de merda, de comprar mais merda.
jorge, mas tu tá um pessimista idiota, hein? que que tu sabe de gaza?
tô pessimista, não. eu creio em coisas boas, cara! essa é a diferença. eu penso em coisas boas. não fico lamentando: oh! meu querido governo cobra de mim e não me dá nada. não brinco com essa merda. minha merda é outra, cara. existe uma multiplicidade de merdas a serem formuladas. um sem-número de singularidades múltiplas. eu faço minha própria merda, cara.
ainda bem, né jorge?
é sério! eu corro atrás, e tudo mais.
mas tu chegou onde está como?
não venha me dizer que eu devo minha vida ao governo, cara! minha vida eu devo aos meus. aos que a fizeram ao meu lado. àqueles que estiveram juntos na minha caminhada, e não à essa merda toda.
de alguma forma você está aí por conta dessa merda toda, jorge.
eu sei.
então não sacaneia, jorge.
mas essa merda toda não precisa ser a merda que eu vou carregar até o fim da vida. então eu faço minha própria merda, cara! meu próprio caminho.
tu é um individualista doidão, jorge!
não! é aí que tu se engana, cara! eu sou eu, claro! mas eu também! sacou? também! sou muito mais. e minha merda é feita disso tudo!
tu tá meio esquisito hoje, jorge.
é que vi um filme estranho.
é mesmo? tu vendo filmes?
não encha o saco, cara. filmes também são essa merda toda, só que mais cheirosos. aliás, a coisa mais legal que tem por aí é a música, mas ela tá cheirando como você, cara!
eu vou dizer o que eu penso, jorge: nisso você tem um pouco de razão.
então, vê se pára de ficar sentado aí, seu merdinha. eu já estou por aí:
"e o universo me fez de novo sem ideal, sem esperança, e o dono da tabacaria olhô pra mim e sorriu."...

sábado, novembro 15, 2008

conversação

Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer. WB

...mas acontece que uma realidade encontra a outra, o passado reclama o respeito aos seus títulos, o presente, a princípio, inclina-se diante da primazia e nobreza do passado, mas reclama e quer impor os seus próprios valores, pois o que vive tem sempre razão. Nem sempre nessa luta o presente vence o passado, ou aceita apenas aquilo que é vivo do passado; muitas vezes o passado derrota o presente e faz nascer um futuro alquebrado. O dever do historiador não é para com os mortos, nem o culto do passado pelo passado deve ser nosso princípio. É em nome do presente que julgamos o passado, pois não há passado puro e único, mas mutável como a história, de acordo com a visão interessada do presente. JR

Temos uma responsabilidade pelos fatos históricos em geral e pela crítica do abuso político-ideológico da história em particular. Eu costumava pensar que a profissão de historiador, ao contrário, digamos, da de físico nuclear, não pudesse, pelo menos, produzir danos. Agora sei que pode. EH

As relações da História com o Presente da História com a Vida e com a Ação têm sido tratadas por filósofos, pensadores e historiadores. É a História um poder ativo, que determine ou condicione o presente, que nos force ou nos sugira meios de ação, agens ou potente da vida? JR

O cronista que narra indiscriminadamente os acontecimentos, sem distinguir grandes e pequenos, leva com isso em conta a verdade de que nada do que jamais aconteceu pode ser dado por perdido para a história. Certamente, só à humanidade redimida cabe o passado em sua plenitude. Isso quer dizer: só à humanidade redimida o seu passado tornou-se citável em cada um dos seus momentos. Cada um dos momentos vividos por ela torna-se uma citation à l’ordre du jour – dia que é, justamente, o do juízo final. WB

Deus não é dos mortos, mas dos vivos, porque, para ele todos são vivos. A história também não é dos mortos, mas dos vivos, pois ela é a realidade presente, obrigatória para a consciência, frutífera para a experiência. A vida e a realidade são história, gerando passado e futuro. JR

A história universal pode atingir uma variedade maior. Por uma teoria das multiplicidades por elas mesmas, no ponto em que o múltiplo passa ao estado de substantivo. As multiplicidades são a própria realidade, e não supõem nenhuma unidade, não entram em nenhuma totalidade e tampouco remetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações são, ao contrário, processos que se produzem e aparecem nas multiplicidades. Os princípios característicos das multiplicidades concernem a seus elementos, que são singularidades; as suas relações, que são devires; a seus acontecimentos que são hecceidades (quer dizer, individuações sem sujeito); a seus espaços-tempos, que são espaços e tempos livres; a seu modelo de realização, que é o rizoma (por oposição ao modelo da árvore); aos vetores que as atravessam, e que constituem territórios e graus de desterritorialização. Em todo caso, a questão é: onde e como se faz tal encontro? GD&FG

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

uma chuva de granito ou a desconfiança do conceito de progresso.

ontem choveu demais! muito. mas muito! como há tempos eu não via chover. choveu até minúsculas pedrinhas d'água. coisa que eu não via desde pequeno. e de pequeno eu ouvia as pessoas sérias falarem sobre chuva de granito. que o granito tinha feito muitos estragos, que o granito isso, que o granito aquilo. até na televisão falavam sobre a chuva de granito, mas ela só me mostrava gelo, e granito, que era bom, nada. eu até pensei, em um pequeno espaço de tempo, que o granito se formava no céu e caía aí, de graça, para as pessoas usufruírem. e pensando bem, porque diabos aquele tanto de pessoas sérias, que queriam consumir os produtos da felicidade anunciados na tv, aqueles que limpavam as pias de granito da cozinha e dos banheiros, achavam ruim chover granito? olha que bom! chove granito e as pessoas não precisariam nem comprar... era só modelar as peças, juntando-as, mandar cortar, polir e suas lindas pias estariam prontas! era o que eu pensava. mas as pessoas sérias preferiam seus carros às pias de granito, eu acho. infelizmente, mais tarde, descobri que a chuva de granito era na verdade de granizo. e que o granito vinha de empresas controladas por pessoas sérias que exploravam as redondezas das montanhas mundo afora. ontem, na avenida silva lobo, o que caía era granizo. ainda bem. mas isso ainda me frustra.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

aperfeiçoamento da articulação lógica e retórica sob os efeitos da ilusão da coesão hierárquica do mundo social. I (por um cidadão comum)

estive a reparar e a pensar o quanto penso e nada faço a respeito desses pensamentos. na década passada não pensava tanto assim. agora são tantos problemas pra pensar. estou até fumando com meus filhos. sabe, aquele cheiro doce sempre apeteceu meus sentidos! ele mexia comigo desde que meus primos me enchiam o saco lá no posto agro-pecuário. daí eu fumo quando chego em casa e fico pensando. e acho graça das coisas e das crianças. e pela manhã eu saio para tentar trazer algo para comer no final do dia. e para garantir mais alguns momentos de pensamentos engraçados. o emprego enche o saco. e vi que gasto mais horas fazendo nada de saco cheio, mau-humorado do que fazendo nada brincando, pensando e rindo das coisas. a brincadeira realmente não faz parte da vida de milhões de outros trabalhadores como eu. e pensar sobre isso consumiu todo meu fim-de-tarde de ontem. hoje eu falei com meu mais velho e disse para ele fazer da vida uma coisa boa. uma brincadeira. e brincadeira é coisa séria. é coisa de mudanças, sabe? daquelas que mudam o modo de viver e se relacionar com o próximo e com o meio. ele disse que eu estava era chapado demais. mas eu não sei, viu? acho que estava cansado de tantas provações. mas, realmente, veja só que coisa maluca. o mundo sem trabalho! não teríamos mais quem assinasse os papéis de nossa identidade, não teríamos mais quem produzisse as necessidades mais básicas como o celular, computador e os cigarros com fumo asiático. imagina o homem fazendo tudo aquilo que lhe der vontade... não! impossível, meu deus! o homem não sabe dividir tarefas por si só. as tarefas necessárias são coordenadas pelos nossos fortes estados. dou graças a deus que tudo está direcionado e pré-determinado, que estou seguro aqui em casa. e que eu tenho tempo de sobra para pensar em muita coisa. o trabalho nos mantêm organizados e ocupados para, depois, ficarmos na segurança de nossos lares pensando sobre essas coisas primordiais. taí, que engraçado! porque é que eu não pensei nisso antes? benzadeus!

sexta-feira, janeiro 04, 2008

brincando de reconhecer

Descobri o nome daquele que causa os “sinistros”, que minha avó tanto fala. 'Sinistro' era como ela chamava meu tio, o “desastrado” da família. E ele sempre foi uma referência quando eu quebrava algum copo ou derrubava feijão na toalha limpa, pois ela se apressava a contar alguma história de outros "sinistros" cometidos por aquele tio. Sempre achei que não era nossa culpa, e hoje creio que tinha razão. Descobri ainda que quem causa esses "sinistros" é aquele anão corcunda sobre o qual o alemão falava na primeira tese, que se esconde na mesa de xadrez da história e que conduz com cordéis a mão do fantoche que joga. Talvez seja deus, talvez seja simplesmente o acaso. Talvez aquele alemão teria pensado que o controle do jogo provinha de algo mais místico que o acaso, mas prefiro este para entender o papel que aquele anão, o corcundinha, representa. Se só uma sociedade redimida pode citar seu passado em cada um de seus momentos, e se essas citações só são possíveis no dia do juízo final, da redenção, como disse o teutônico, então durante aquela famosa retomada de nosso passado, segundos antes da morte, quem apareceria para fazer com que reconheçamos inteiramente nossa trajetória seria o corcundinha. Mas qual o sentido de esperar a morte para nos rendermos à reflexão sobre o que estamos fazendo de nós? Se não podemos lutar contra o acaso, contra o imprevisível corcundinha, podemos, ao menos, aprender com ele e retomar os objetivos dos nossos projetos. O que esperamos do porvir quase nunca vem da forma como concebemos inicialmente, assim creio que o que faz a humanidade seguir adiante é a habilidade de lidar com essas casualidades. Não estou dizendo que nossas vidas são feitas somente de acasos, mas sim que essas ocasiões são propícias para refletirmos sobre nossa trajetória, e, quem sabe, mudarmos alguns rumos. O problema é que nunca vemos o corcundinha. Só ele nos vê. Só ele pode lançar um olhar para nós, e é com esse olhar que as coisas começam. Nos resta exercitar nossas habilidades de disputar aquele jogo, de regras eventualmente modificáveis, para percebermos com mais clareza os movimentos das peças. Já que o corcundinha não pode escolher nenhum lado, e efetivamente não escolhe, restou para a humanidade desenvolver uma capacidade – ou mais de uma – eficiente de superar os estragos causados pelo imprevisto, e cada sociedade dá seu jeito. Alguns de nossos modernos antepassados – aqueles que se acreditavam herdeiros do outro lado do Atlântico – temiam o imprevisto e lutaram para vencer o corcundinha. A modernidade – confundida com o capitalismo – criou inúmeras fórmulas e leis para superar esse problema, que atuava (e atua) em todos os espaços da vida. Hoje milhões de brasileiros lutam contra as adversidades da vida cotidiana, mas, ironicamente, para muitos o acaso é na verdade o contrário daquele que amedrontava nossos queridos antepassados moderninhos – isso para não colocar sempre nossas queridas elites contemporâneas na história. Enfim, descobri o nome daquele que me faz quebrar um copo nas condições mais adversas para que isso ocorra. E descobri que o exercício que fazemos só pode ser feito se reconhecermos as transformações, – no plural, diferentemente do que o alemão pensou – as mais imperceptíveis de todas. Eu posso chorar pelo copo perdido ou dar novos usos para aquelas peças de vidro, aparentemente inúteis.

quarta-feira, novembro 21, 2007

As cores são andróginas, vermelho é vermelha. mas não há conflito de gênero: ele só aparece quando relacionamos as cores com os sujeitos e objetos.

ela estava caminhando
na avenida movimentada
quando transformou-se em
vermelho.
logo ali
no corredor de ônibus.
transformou-se em vermelho.
ela ia tranqüila e atordoada,
e transformou-se em
vermelho.
num segundo ela era
todo o vermelho que
se via na avenida.
no asfalto quente,
em rostos boquiabertos,
em pára-brisas,
em um motor, em rodas.
agora ela era feita ora
de uma pasta vermelha ora
de um líquido vermelho.
ela se espalhou pela cidade,
oxidou-se em postes metálicos,
misturou-se com secreções oculares,
infiltrou-se nas águas do esgoto, quando a água jorrou
no asfalto.
o primeiro que ficou feliz foi
o cachorro que degustou um pouco daquela pasta
vermelha em que ela havia se transformado.
em pouco tempo, ela estava circulando pela cidade
nos bicos das pombas, nas línguas dos cães, nos olhos dos velhos.
ela estava lá caminhando e
transformou-se em vermelho.

sexta-feira, outubro 12, 2007

diariamente uma mente velha transforma seu legado

o velho já não pode mais sair pois dói o pescoço, dói a coluna, dói a pele, doem as costas, doem os órgãos vitais, doem as pernas, doem os músculos, doem os dedos. o velho pensa no dia de ontem e vê a confusão lírica que foi sua passagem. corpos extravasando seus amores e ódios, defenestrando-os para cima de outros corpos. corpos em comunicação. é quase impossível para aquele velho pensar, colocar em forma de palavras, os ritos por ele vivido. mas o pensamento se forma a partir do sentimento que ocupa sua mente insana, carregada de uma imensa soma cosmológica produzida por séculos de civilização. uma mente que se encontrou com seus antepassados mortos e que procurou superá-los. procurou não deixar a centelha se apagar. orientando as ações de seu corpo no sentido de deixar um legado maior que o dos mortos. no sentido de avançar as peças no tabuleiro de forma a surpreender seu adversário. uma mente que movimentava cada peça com o esforço de alcançar a rainha e não o rei, frustrando toda expectativa do adversário. ela não mudou as regras do jogo, mas mudou a forma de interpretar o jogo. ou pelo menos a forma que ensinaram para ela. forçando as mentes que o rodeavam a, pelo menos, encarar outras formas de perceber o jogo, ou melhor a vida. ela sabia que essa metáfora não fazia jus à complexidade da vida. mas ela sabia, também, que a metáfora não precisava ser racional. e para ela, a vida devia mais à metáfora do que o contrário. e os mortos deviam mais à vida. do que a vida aos mortos. mas ela sentia-se em dívida com os legados, pelo menos os que lhe apeteciam, dos mortos. e buscou aperfeiçoá-los. depois de olhar para ontem, a mente do velho percebeu que as dores de seu corpo só se externalizavam porque este corpo agiu. a mente do velho se encheu de hormônios ao perceber que as escolhas feitas para sua atuação, em conjunto com o corpo, geraram as inúmeras dores neste presente. ao perceber-se como criadora de um legado que irá ser superado. as substâncias que invadiram o espaço daquela mente reagiram e conduziram para a face do velho impulsos. surgiu em seu rosto um sorriso. de quem vai sair de casa. na busca de superar seu legado.

domingo, outubro 07, 2007

Trailer# The Bird People in China (1998)


A eterna vontade de voar.
Lindo, simplesmente lindo!

Braindead (dead alive)

Poesia lírica!

sábado, setembro 22, 2007

o fim da noite

oh!
e já não há mais tantas forças.
o estômago dói. o intestino não funciona.
a gengiva sangra. a coluna dolorida e torta.
o joelho moído. os olhos ardendo.
e o cérebro continua sempre dando defeitos. talvez agora mais doentios.

o fim

sexta-feira, setembro 21, 2007

eu acho que eu já tive um amor...

"tive sim, outro grande amor antes do teu, tive sim.
o que ela sonhava era os meus sonhos e assim íamos vivendo em paz.
nosso lar
em nosso lar sempre houve alegria.
e eu vivi tão contente.
como contente ao teu lado estou.
tive sim, mas comparar com o teu amor, seria o fim.
então vou calar.
pois não pretendo, amor, te magoar.
pois não pretendo, amor, te magoar."
o amor está em mim. como não poderia estar? podendo. mas ele inexplicavelmente está em mim. e inexplicavelmente ele é uma construção coletiva. logo ele pode ser o mesmo sentimento que você, do outro lado desta rede de relações, sente. mas ele pode ser algo incompreensível para quem não mais está envolvido em uma rede de relações. ele pode ser vivido por uma pessoa só, por duas, ou por várias. ele pode ser esperado por uns, entendido por outros ou incessantemente buscado por mais outros. ele pode também simplesmente não ser inteligível para muitos. e passar desapercebido. eu amo. não sei explicar como. eu amo e sou capaz de não mais procurar quem eu amo, caso a pessoa esteja precisando de estar só. eu amo e sou capaz de remoer amores passados. eu amo e sou capaz de não mais me dedicar a nada. eu amo e sou capaz de escolher a vida e continuar aporrinhado este mundo ao invés de me matar. há muito tempo eu preferi a tolice de viver. desde então eu perturbo o mundo com as várias maneiras de pensar o próprio mundo. não sou capaz de amar todo mundo deste mundo. mas sou capaz de tratar aquilo que eu odeio com um abraço, com um afeto. justamente para corromper as escolhas "naturais" de nossas sociedades. também posso cuspir em pratos depois que a refeição terminou. sim, nunca disse que não sou estúpido. mas isso é outro caso. ou "caos" aqui é outro. (é caos mesmo) amores podem surgir de um aperto de mão. ou só depois de anos de convivência. mas há amores e amores. há tempos que não participo da construção de amores. eu presenciei realizações amorosas, como a participação política de estudantes na universidade. mas não participei dessa realização. senti um amor grande por algumas pessoas libertárias, mas não criei nenhuma espécie de amor entre nós. logo podemos amar, sem nos relacionar também. eu não vou chegar ao ponto de amar nenhum bush, ou fidel. os amores também têm limites. mas será que eles não são amados por ninguém? eu até gostaria que não. mas eles são seres humanos que construíram suas relações ao longo de suas vidas. e em algum momento deve ter havido amor. fidel em suas lutas e bush... er... e bush... e bush quando sua mãe o pariu. ah... o amor é uma construção, como já disse. logo o que é amor para alguém que vive o dia inteiro sob pressão de ser atacado por um policial durante toda madrugada é diferente do amor para alguém que vive no conforto de seu apartamento amparado por um copo de leite quente que a mamãe preparou. será que nós nos amamos realmente? bom, eu já fugi do intuito inicial, então fico por aqui. em pedaços. talvez esses pedaços possam ser completos.

o medo de perder o medo

outro dia estava eu cortando caminho pelo parque farroupilha. o parque da República. de bancos de fins do século XIX. de sociabilidade da burguesia emergente sulriograndense. com passarelas sobre um pequeno lago, hoje sujo e fétido. com árvores que te fazem esquecer o gosto do ar urbano. o melhor adjetivo para ele hoje seria democrático. mas na verdade ele nasceu republicano. e sua suposta democracia só mata a fome da alma "popular" em dias de domingo e feriados. principalmente nos que têm passe-livre para toda população. sim. passe-livre. quanta democracia. pois bem. estava eu esquecido do trânsito urbano. perdido em meio ao som quase provinciano do parque até que fui surpreendido por um corredor que vinha logo atrás de mim. o senhor estava simplesmente tentando, em seu tempo livre, curar o coração de suas gorduras ingeridas ao longo de sua vida de gaúcho. ou exercitando seu pulmão podre de 20 anos de acondicionamento de nicotina. ou sei lá o que. o que interessa, e isso sim é instigante, é que eu me virei assustado e tenso. talvez pensando que estava sendo abordado por um possível corpo que escolheu a via do liberalismo cotidiano da urbe: saques e motins. sim. era isso. esqueçam o talvez. o homem chegou a pedir desculpas, sem parar sua corrida pela recuperação de sua saúde. ele percebeu claramente minha feição de tensão. refletindo sobre o ocorrido percebi o quanto vivemos sob tensão. todo o tempo. estava eu em um parque, cortando caminho para chegar em minha passagem de porto alegre. e me dou conta do quanto o mundo moderno (muitos diriam com a boca cheia: pós-moderno, seu “out”!) nos deixa tensos. e a tensão vem de todos os lados. desde a televisão até na literatura. sim. até nesta tão gostosa fuga. tensão em kundera, tensão em bukowski. não é a boa tensão. aquela sobre a qual realizamos nossas práticas cotidianas e que nos faz mover. mas a tensão no sentido de fobia. de medo. medo das ruas. medo da sombra que vem logo atrás de você. sentimento criado. porém sentimento sentido. vivido. chegam a criar até mesmo uma instituição para afastar esse medo. por isso não é de se assustar que a polícia declare que já fez por volta de 40 mil detenções e que espera chegar aos 70 batendo o número do ano passado. e deixando como eles disseram todas as famílias tranqüilas. porque as famílias têm medo. e deixar sua liberdade de ir e vir sob a guarda da brigada militar. ainda sou totalmente contra a instituição da polícia. mas me vi inserido por instantes na prática social que este mundo nos ensinou. pelo menos em parte dela, a do medo. e nossa sociedade parece ter medo de perder o medo. porque desaprendemos a viver sem a polícia. porque ela parece algo que está na ordem natural das coisas.
vivendo na utopia de perder o medo e encarar todos como senhores de seus destinos posso até me deparar com uma alma que esteja a ponto de agir segundo a ordem que o medo neoliberal nos ensinou. mas aí é outra história. porque tudo pode acontecer. e eu prefiro romper com o medo urbano.
uma pessoa que vive de sonhos. e sonhos envelhecem... ah, como envelhecem! ou foi só a alma amargurada que envelheceu durante sua vil existência? não sei, talvez no futuro alguém dirá: "um gordo que procurou viver..." triste, mas passível de ser verdadeiro.
enquanto espero não ser como eles, não tenho tanta certeza de que não sou.

sábado, julho 21, 2007

Para se encontrar é preciso se perder

A vida é a eterna luta para manter o intestino em funcionamento....




Agradeço vossas palavras bonitas.... mas não podemos negar minha mediocridade.

Escuto Cartola, ele me diz para disfarçar e chorar...
Disfarçar eu até consigo... chorar é que não... Daí meu pranto irriga é meu coração que fica cada vez mais fraco... Ao invés de molhar o deserto como o Mestre prometeu...
Penso que preciso ir... andar, sorrir já que não choro... assistir o sol, ver as águas do rio grande, ou vir a cuíca cantar... renascer, reviver...
Eu te deixo ir caro Mestre, anda como um vagabundo... Perambule pelas ruas. elas são tuas...
O mundo pode ser um moinho, mas pode ser uma bela de uma privada de rodoviária... ou de um quintal imundo dos anos cinqüenta... Em pouco tempo não seremos mais o que somos... E o moinho pode até triturar nossas ilusões, mas é a privada que irá fuder nossas genitálias e nosso reto. Cuidado com o cinismo.
Tive amor sim! Antes do teu, sim! E vivia contente, como vivo contigo... Mas comparar com o teu amor é o fim... Então calo pois não pretendo, amor, lhe magoar... Mas pensando bem... se não pretendemos magoar porque começamos a falar? Porque gostamos. Amamos. E assim, somos sinceros.
Deixe-me ir? Mal conheço a vida, não sei meu rumo. Mas preciso andar. Não estou resolvido, e minha vida ficará em cada esquina... Mas quero nascer. Quero viver.
Cavei o abismo com meus pés. E sairei dele com minhas mãos.
Espero não quebrar as promessas que eu nunca fiz... Espero estar junto, trabalhando até o dia que tivermos o suficiente. E quando o suficiente for suficiente para mudar... Mudaremos....Espero não quebrar as promessas que fiz a mim mesmo, enquanto criança...
Mas preciso ir... preciso andar...

domingo, julho 01, 2007

fragmentos sobre aqueles que estão reunidos em uma pessoa só

tocando os pés daquele senhor, naquele quarto escuro com um cheiro acre, ele pensava em descrever aquela sensação de angústia e alívio. ele sabia que aquela massagem o conectava àquele homem deitado naquela cama inclinável. e doía quando batia às portas de seus pensamentos uma idéia moribunda, que sempre lhe deu calafrios. a idéia de que poderia ser a última massagem. mas isso não lhe preocupava. eram dores constantes, logo, já não tinham tanto impacto sobre seu corpo. o que importunava sua mente era o fenômeno que ele estava ainda por nomear. era a situação vivida ali, durante aqueles poucos minutos de cumplicidade desproporcional. mas os dois pareciam saber que aquele momento eram deles. aquela massagem parecia como uma tradição secular de demonstração afetiva. à frente daqueles dois corpos unidos pelo vai-e-vem que suas almas faziam, caminhando de um corpo a outro, a televisão estava ligada entretendo superficialmente os dois olhos daquele senhor, que havia se entregado ao ritual. ela fazia o simples papel de iluminar com diferentes cores aquele quarto escuro conformando o cenário daquela união.
...
naquela tarde fria e ensolarada aqueles jovens percorrem alguns quilômetros com o sol tocando suas faces amareladas. eles conjecturam sobre o futuro, sobre seus desesperos, suas utopias coletivas e frustrações mundanas. eles acham engraçado querer construir algo em coletividade ao mesmo tempo em que se sentem, individualmente falando, incapazes e inúteis. riem com tanta intensidade que chegava a sair lágrimas de seus olhos. ao encontrarem o local desejado para compartilhar a tarde e a noite que logo chegaria eles se esticaram numa grama verde e macia. justamente como ela queria, mas não tanto como ele imaginava. as gargalhadas sinceras e cúmplices transformam-se em olhares profundos que dialogam entre si numa sintonia estranha e magna. estranha é também a intensidade dessas tardes que eles costumavam compartilhar. compartilhando mundos e nunca se fechando para eles. reunidos numa pessoa só eles deixavam seus corpos e almas se comunicarem com o resto da comunidade à qual estavam integrados.
...
seguindo seus desejos de unir-se com sua amiga de forma diferente das já tinha vivenciado, ele pega aquelas pernas macias e carnudas, sentindo as gorduras de suas mãos entrando em contato com as gorduras das pernas dela. e aproxima estas ao seu rosto, respirando junto àquelas canelas um ar quente e úmido. os corpos dos dois se contraem de prazer. de um duplo prazer. ele por massagear os pés dela e receber carícias em seus joelhos. ela por fazer essas carícias e receber aquela massagem. a intensidade daquele momento fez com que seus corpos se comunicassem num ritmo estremecedor. suas almas se encontravam de tempo em tempo. e a cada encontro um tremor abala as estruturas de seus corpos.
corpos e almas reunidos numa pessoa só.

sábado, maio 19, 2007

os bárbaros ou a eterna vontade de romper com a catástrofe

- exceder. é o que me falta. tenho medo de me tornar um novo rémy. não que ele seja medíocre. não apoio esta tese. não quero é me arrepender daquilo que deixei de fazer. ficar pensando a vida toda em escrever "memórias póstumas de brás cubas" é o que não quero.! prefiro escrever as 'memórias de um porco doente'. o importante aqui não é, na realidade, escrever memórias mas fazer algo que possa, mais tarde, ser propulsor da vida. ou seja, produzir sem medo, não importando se o trabalho será reconhecido ou não. pois a partir disso poderemos execer. tirar as máscaras e sermos humanos - ensinamento herdado de uma linda professora que lia cioran, iracema. mas somos tão frágeis. e não conseguimos encarar a morte com naturalidade como cioran o fez. mas deveríamos. tenho medo de morrer, e como rémy talvez o medo seja na realidade de perder algo que não mais possuo. só que no meu caso não é o passado que vivi, mas o não vivido, e o porvir. tenho medo de perder o porvir e viver perdido num limbo (agora defendo sua existência) aonde o que foi possível nunca mais será. é como que um mundo novo, ou uma proposta presa em uma bola-de-gude. que viverá enquanto bola, porque quando a bola se desfizer a proposta se romperá, tornando-se uma enorme gama de possibilidades. possibilidades já não mais executáveis na ocasião em que se cristalizou. possibilidades que poderão ser perdidas ou incorporadas por novos 'rémys', que novamente temerão pelas boas oportunidades perdidas.
- "hey! então, preste atenção nas oportunidades que não perdestes ainda!"
- sim senhor, peligro! é sempre bom conversar contigo.!
- "disponha"

sábado, maio 12, 2007

Precisamos nos encontrar

A vida surpreende a cada nova morte de um segundo. É no segundo que o pensamento nos permite conectar realidades, teorias, textos, produções humanas no geral. Na verdade, em um primeiro segundo fazemos uma aproximação entre duas produções aonde procuramos observar as possibilidades de diálogo entre elas. E num outro segundo conseguimos – por estalos, após meses, senão anos, dando murros em ponta de faca – fazer a conexão de determinadas realidades. Creio, realmente, que o trabalho de atentar para o resto do mundo enquanto estamos obstinados a enfrentar um único objeto é crucial para ir além das fronteiras do senso comum. Para avançar em questões novas e que, por vezes, e muitas por sinal, passam desapercebidas.
Muitos de nossos princípios talvez venham de lugares nunca visitados ou imaginados. Talvez o tempo seja uma chave para este baú lacrado quase esquecido no fundo do porão. Ao tratar do passado - e porque não o presente? - devemos ter em mente que nossas experiências sofrem influências das marcas do passado. Pensar que essas experiências como um amalgama de histórias: a vivida, a pesquisada, a estudada, a analisada, a narrada, (como nos ensinou Lucília Delgado, mas também) a ensinada, a almejada, a oficializada, a sentida, a documentada, a (re)lembrada.
Percebi que a conexão entre o eu e o você é maior do que imaginamos. Maior que nossos umbigos!
"Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar, sorrir pra não chorar. Quero assistir ao sol nascer. Ver as águas dos rios correr. Ouvir os pássaros cantar. Eu quero nascer, quero viver... Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar depois que me encontrar. Deixe-me ir..."
!

terça-feira, maio 01, 2007

rascunhos sobre o velho

é... e o velho continua andando pelas sombras e sobras. escondendo suas rugas e desencantos. procurando não deixar escapar de si que ele sente, como que tatuado em sua testa, suas rugas e desencantos. anda confundindo, em sua solidão, saudade e alívio daquilo que já passou, daqueles que passaram por ele. e não crê mais nos sonhos. aliás, já não há mais espaço para as ilusões de outrora. se sente como um vendedor de si mesmo, e crê que oferece mais do que recebe. na verdade ele não consegue mais sentir prazer, a não ser quando tenha algo para oferecer. hoje em dia já não tem mais nada para oferecer, mas ainda não sabe disso. o velho anda pensando sobre suas conquistas, seu trabalho, sua falecida esposa, suas amantes, sua vida. e mais, se questionando se ele chegou a escolher tudo isso, ou simplesmente aceitou as escolhas alheias. e discute com seus botões sobre seu caráter: "somos sinceros ou hipócritas?". ele mal sabe que as situações de sua vida foram sempre assim, conflitos de interesses díspares que aceitavam múltiplas negociações e interpretações. o velho não percebeu em suas reflexões que, durante esses conflitos, sempre preferia se calar.
...

sexta-feira, abril 20, 2007

esquecimentos de miramar

é a dor de não saber ver ou a lamúria de ver demais que tem causado transtornos mentais naquela cabeça. cabeça dura que não sabe mais como se brinca com as palavras. que não conecta mais vida e morte ou que ignora sua vida desejando sempre a morte. o desejo de ouvir os mortos também faz dele uma estúpido prosador. prosador que, no fundo, gosta do que faz e acredita no que faz, apesar de não mais entender suas principais funções, ou antes, apesar de questionar (a necessidades d)as funções do seu trabalho. uma mente em crise constante, melancólica e nostálgica. no sentido melancólico e nostálgico que um velho puteiro, caído aos pedaços - fragmentos da luta que o tempo media - tem. é a dor de não ver o hoje ou de não se perceber enquanto vivo. é a dor de não saber instigar novos 'perceberes' ou o pesar de não ter agido em favor das vidas dos mortos.
miramar miram ar mira mar mirar amar mirar y amar
(os "carlos" sempre inspiram um desejo de mirar e amar!)