segunda-feira, setembro 26, 2011

NA POLÍCIA E NAS RUAS

26-06-1928

BEBIAM PARA ESQUECER AS MÁGOAS
É a eterna desculpa de sempre...
Um cavalheiro qualquer, porque não acertou na “centena”, não foi feliz em negócios, ou não é correspondido pela dona dos seus cismares, entende de consolar as mágoas em repetidas cálices de parati...
Ontem quando tentavam esquecer as agruras da vida num botequim da Barroca, os nacionais Raymundo Cosme e Maria Lourença, tornaram-se inconvenientes e começaram a ameaçar céus e terra, sendo por isso recolhidos ao xadrez da delegacia do terceiro distrito.

DO SALÃO DE BAILE PARA O XADREZ...
Promover um baile nesta capital não é, como muita gente supõe, uma coisa simples e sem formalidades. É preciso o consentimento da polícia...
Ignorando essa particularidade, alguns moradores da Barroca comemoravam, com uma festança de sucesso, a noite de S. João, quando a polícia invadiu inesperadamente a casa onde se realizava a “função” e prendeu os seus promotores, que pernoitaram na terceira delegacia.

NEM COM UMA FLOR, “SEU” ALFREDO...
A escolha do título é uma das torturas da vida do repórter.
Este “nem com uma flor” é velho, já está grisalho pelo uso de todos os dias...
Porém, para um cavalheiro, pelos menos esse “cliché” constitui novidade.
Trata-se de um Alfredo S. Horta, que além de espancar a Mathilde Soares Ferreira, vive ainda a ameaçá-la de morte.
Mathilde pediu providencias ao dr. Mariano Sales, delegado do terceiro distrito.

AS DOÇURAS DO LAR...
Como seu marido,Joaquim Bruno, além de espancá-la ainda vive a ameaçá-la de morte, Maria Jacinhta foi queixar-se às autoridades do terceiro distrito.

SAIU “À FRANCESA...”
Rosalina Alves, residente na Pedreira Prado Lopes, foi ontem à delegacia do distrito apresentar queixa contra o seu ex-inquilino Octavio de Britto, que não lhe quer pagar alguns meses de aluguel de casa que lhe deve.

quarta-feira, julho 27, 2011

dicertando

"a escrita não fala do passado senão para enterrá-lo. ela é um túmulo no duplo sentido de que, através do mesmo texto, ela honra e elimina."

terça-feira, julho 26, 2011

eu não sei se isso é delírio ou mera vertigem

ando dias a fio
pensando em palavras que não me
deixam mais
pensar que elas estão junto a mim.
assim, esqueço o que elas querem,
o que elas podem
o que elas jamais vão
significar.
me entrego a um trabalho
ou deito meu olhar na tela branca
observando resquícios do que não é tão torpe quanto o que nos rodeia.
se já não durmo de menos, como antes,
pelo menos passo a noite a imaginar
como seria se fosse da mesma forma,
se o retorno não passasse mais a ser um torno em volta de si mesmo.
ando dias a fio afiando as palavras
para que elas desapareçam
e não me matem como o frio que arranca o último suspiro de animais urbanos
tão humanizados quanto o escarro que escorre da boca de uma criança trabalhando em uma plantação de café.

segunda-feira, julho 04, 2011

elegia para Helena

sei que andas a me observar. gosto do sentimento que isso me traz. sempre há coisas para se mostrar. mesmo aquilo que não a satisfaz. você aparece calada e eu esqueço dos seus olhos sobre mim. até vejo-me rimando assim, de uma forma desengonçada.
mas quando lembro de teu olhar, arrepio só de pensar, que de tempos em tempos sobre mim ele vai pousar.
oh Helena, siga brilhando entre os exílios da emoção,
enquanto fico a enterrar-me nas fissuras da desrazão.

sábado, maio 07, 2011

tentando encontrar um caminho para a saída

e foi assim que ela saiu. sem olhar para trás, sem dizer nada, sem demonstrar que existiria um próximo encontro. afinal, não havia mais nada para dizer. já não fazia diferença nenhuma dizer ou não dizer. era como se já tivesse dito tudo, ao não dizer nada. nem aquele olhar tagarela que ela lançava, nem um discurso verborrágico que seu corpo costumava enunciar. nada. não havia nada para ser dito e nada foi dito. ficamos lá esperando o sereno da noite chegar ou alguma boa desculpa para nos tirar do lugar e para nos mover um pouco. havíamos desistido de qualquer coisa há tempos e as pessoas cansavam-se disso. queríamos ter o direito de desistir. e foi o que fizemos. mas depois ela desistiu de desistir. não havia o que dizer para seguir adiante. o recomeço era algo muito mais doloroso do que a viagem que fizemos para abandonar tudo. mas tudo já havia sido dito sobre isso. o exercício do silêncio nos fez dizer tudo sobre tudo. e talvez isso tenha feito ela desistir de desistir e desejar voltar ao desenrolar cotidiano de sua antiga vida. mas ela já não era a mesma, nem aquela que ainda não queria desistir da sua vida normal, nem aquela que resistiu e abriu outros caminhos para sua vida, desistindo de tudo. ao desistir de desistir, ela lutou contra seu pior inimigo: contra si própria. ela teve de se matar para poder viver outra vez, de outra forma. e foi assim que ela simplesmente saiu.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

que mundo?

cirino acabara de entrar em seu trabalho para fechar o ano. era a última aula que ele iria lecionar. daquelas que todos os estudantes ficam constrangidos diante uns dos outros e do professor, ao realizar-se uma avaliação oral do curso. que, em sua maioria, começa com um rol de elogios seguidos de alguns 'poréns' e fechando com positivos 'mesmo assim...". mas ele não chegou para sua aula. foi atingido por um tiro na cabeça, por um de seus alunos. muitos se perguntaram: 'em que mundo vivemos? como pode?' num tom apocalíptico muito caro em momentos de desespero, como esse. outros tentavam relembrar que, mesmo assim, há aqueles que querem continuar, quem tem esperanças, que seguem fazendo coisas boas. e que cirino iria gostar se déssemos continuidade aos trabalhos iniciados por ele, típica reação de quem não quer ser obrigado a desistir.
mas tereza, sentido seu peito destroçado, simplesmente comentou baixinho que esse mundo é um eterno entrelaçamento entre aquilo que fizeram de nós e aquilo que seguimos a fazer de nós mesmos.
nisso, uma lágrima, que seguiu rasgando tudo que encontrava pelo caminho, escorreu.

domingo, dezembro 05, 2010

the laughing heart

your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.

C.B.

sexta-feira, novembro 05, 2010

angustias oníricas

estávamos em viagem. parecíamos andar sem destino fixo. passávamos de cidade em cidade, hospedando-nos em hotéis e casas abandonadas. assim que saímos da última parada senti que faltava algo. mas não sabia o que. havia esquecido minhas coisas num hotel. uma sacola com alguma coisa para vestir, ler e beber. só me dei conta quando chegamos na nossa próxima morada temporária. falei com quem dirigia o ônibus que tinha perdido minhas coisas e ele disse que eu conseguiria encontrar. adentrei prédio adentro e fiz o reconhecimento do ambiente. me acomodei em um quarto. minha mãe estava lá, e mais algumas pessoas. uma televisão estava ligada e as pessoas assistiam a um filme. enquanto isso procurava como um louco. mas não encontrava as coisas. passei a vasculhar todo o prédio, que mais parecia uma construção literária de machado ou azevedo. tava mais para um cortiço, ou cenas do kusturica. ora chão batido, ora terra e cimento. com armários cheios de utensílios e com poucos mantimentos. luzes vermelhas e amarronzadas. entrei num corredor que me conduziu até um aposento escuro. numa das paredes havia uma janela e um caixote que servia de calço para olhar a abertura da janela. era do tamanho de uma cabeça. e dava para uma sala escura, mas com luzes azuis que pareciam se emanar de uma outra televisão. olhei a televisão e passava um filme. numa das três camas, que estava logo abaixo da pequena janela, estava meu avô, que já havia falecido. ele estava dormindo, mas acordou e ficou ali com um sorriso no rosto. sai a procura de meu tio, que era, na verdade, o motorista do ônibus. ele estava numa cama com uma mulher. pediu para que eu acendesse a luz. relutei. eles insistiram. acendi. expliquei que não encontrava minhas coisas e que tinha deixado na última parada. ligamos para o dono do lugar e ele ficou de guardar para nós. algum dia, quando passássemos de novo pela cidade, pegaríamos tudo. fiquei muito aliviado. acordei querendo tomar um café.

domingo, outubro 24, 2010

quando escrever é fazer-se...

quando escrevo não escrevo o que eu sou. por mais profundo que o texto seja ele nunca dá conta da nossa condição de epitélio. (é que a simplicidade é muito mais complexa do que possamos pensar.) na verdade o escrito é que nos dá possibilidades de ser. nos fazemos com ele e nele. depois nos refazemos, pois um texto não consegue lidar inteiramente com almas e corpos - que mais parecem papéis, que podem ser dobrados e desdobrados. quando escrevo não falo de mim. falo comigo. com você, ou você, talvez até mesmo com você. mas nunca de mim, inteiramente. e sim, daquilo que penso ser, que quero ser, inclusive daquilo que quero distância, que quero me desfazer. escrevo para machucar. pois ao mesmo tempo que o texto procura cicatrizar as feridas, outras tantas armas são dadas, nesse e por esse mesmo texto, para que mais feridas se abram. as criaturas que surgem do ato de escrever sou eu e é o texto. mas é preciso lembrar que ser não é eterno. que ser não é essência. e que escrever é sempre re-criação. sempre uma ação de repetir. repetir para que as cousas possam se tornar diferentes, como me ensinou uma criança na sua segunda infância. por isso o que escrevo não sou eu. não escrevo o que sou.

os esporos se abriram com a amoreira

uma amoreira linda
caminhou 719 km
e deu flores aqui,
perto do meu peito.

seu sorriso era contagiante
e seu cheiro se espalhava
por todo meu corpo.

explodi de tesão e amor.
lancei esporos nos ares
e me infiltrei no solo,
no seu tronco
e na parede do banheiro.

a amoreira cheirosa
continuou sua andança,
deixando rastros de amor.

e eu me expandi,
ao me fragmentar.
estou aqui,
mas também junto dela.

segunda-feira, outubro 18, 2010

de cruzamento dos caminhos

foram seis anos de olhares cruzados. seis anos de 'olá como vai?'. seis anos de interesses em comum. seis anos errando em diferentes caminhos. seis anos de tensões. seis anos sem se tocarem. e de seis anos de desejos ludibriados, quando os caminhos se cruzaram. uma explosão. um frio na barriga. uma combinação entre peles e cabelos. uma falta de sangue no pênis. um turbilhão de dedos nos corpos. um excesso de sangue no pênis. um emaranhado de línguas e suores. um tempo de orgasmos. sem sacralização. sem pressão. com carinho. com tesão. e nada mais.

domingo, outubro 17, 2010

de desvios dos devires

aconteceu que quase tudo desacontecia, e de tanta coisa que podia ser mas não era, muito desaconteceu durante sua acontecência, era mais desacontecimentos que acontecimentos, e então passou a viver um pouco de cada desacontecimento de que tomava nota, desfizera-se em meio aos conflitos de outrora, desacontecendo-se, e passara a acontecer de outra forma, sentiu, subitamente, saudade de seus antigos acontecimentos e tentou retornar, mas perdera toda referência no meio dos caminhos, e já vagava sem memória alguma daquilo que já tinha acontecido e daquilo que tinha desacontecido, se acostumou a viver o que estava acontecendo e tentava fazer acontecer aquilo que sonhava para suas novas aventuras.

domingo, janeiro 17, 2010

fragmentos

II
ela chegava em casa de manhã cedo, tirava a blusa a deixava no canto do seu quarto e preparava um café forte. ainda dava tempo de tomar o café conferindo as correspondências que pegava na portaria antes de tomar uma ducha. era sempre uma ducha fria e rápida. ela costumava dormir depois disso até duas horas. mas naquele dia tinha um compromisso às três. ela havia marcado de passar o som com o convidado especial da noite em uma das casas noturnas em que trabalhava. na verdade era mais para fazer um social. levar o cara para conhecer a casa, depois uns drinks e talvez alguma coisa sólida para colocar no estômago. ela sentia falta de sua companhia, que havia lhe deixado há alguns meses. mas as coisas já estavam se ajeitando. ainda havia vestígios das últimas horas de prazer e tesão em sua cama. uma blusa esquecida e a mistura do perfume das amantes. ela conseguiu lembrar um pouco desses momentos e cochilou. acordou atrasada, porque ainda tinha que atravessar a cidade para receber o seu parceiro de trabalho. correu para pegar o ônibus e ocupou com destreza a última vaga naquele enlatado humano. com o tempo os usuários desse transporte desenvolvem uma espécie de mucosa nas roupas que os fazem escorregar por entre os corpos ocupando um microespaço, por vezes pouco ventilados, até seu destino final. conseguiu, enfim, chegar na casa noturna e cumpriu seu papel de anfitriã até o início da festa. ela era boa nisso, apesar de não gostar da idéia de ter que ser o guia da vez. mas ela sabia se entreter com as pessoas e gostava de lidar com elas. o trabalho foi calmo, com surpresas musicais interessantes, mas nada de excepcional. ela conheceu uma garota interessante, com quem trocou contatos. mas ela voltou para casa sozinha. tirou a blusa e tomou uma xícara de café. pensou consigo mesma que poderia ligar para sua antiga companheira, mas sabia que era estupidez. guardou essa idéia no seu baú de lembranças e, então, tomou uma ducha e se deitou.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

fragmentos

I
um estouro saiu da casa de taiane no momento exato em que o relógio virou o dia. naquela ocasião era festa e ninguém deu bola para o estouro de taiane. centenas de estouros invadiram o céu com brilhos e sons variados. mas o estouro oriundo da casa de taiane reverberou um único som e uma única cor. à meia-noite e três minutos rachel deixou aquele mausoléu temporário. e logo se encontrava num bar, solitária, bebendo enquanto todos a sua volta cantavam a esperançosa chegada de mais um ano. para ela o ano não era uma medida tão importante do tempo. ela preferia os segundos. afinal, essa medida decidiu a vida de todas as pessoas que ela havia executado. ela não vacilava, por assim dizer, mas fixava os olhos em cada pessoa antes de cumprir seu serviço. talvez esperando que algum ato da pessoa a fizesse desistir, ou que a pessoa reagisse e a matasse antes, mas isso nunca aconteceu. na verdade era o momento de sua crise, que durava até o último dos três copos de whisky que tomava para se acalmar após o trabalho. depois disso ela voltava a caminhar. ela sabia que um dia iria chegar a vez dela. assassinos profissionais não duram muito nos dias de hoje e ela já estava há tempos no mercado. já era quase duas horas quando ela abriu a porta do quarto alugado. deitou-se e, como sempre, dormiu um sono profundo sem pensar nos próximos passos que daria. simplesmente descansou.

sábado, dezembro 19, 2009

digo que

quanto mais se escreve mais estranho fica

terça-feira, dezembro 08, 2009

"meu corpo, esse papel, esse fogo", essa água.

hoje choveu de novo. mas eu não estava em neves. choveu muito, mas era no meu sonho. e sandman não apareceu. estava só, com a água tocando meu rosto. e subitamente o mundo se encheu de vidas. me vi envolto a inúmeras árvores. fui trilhando um caminho que me conduziu à uma casa de campo. daqueles pequenos palacetes monumentais no meio de uma campanha. aproximei e entrei. no meio da casa estava lá, um homem sentado com seu robe de chambre, seu papel na mão e o fogo da lareira movimentando seu sangue, meditando. percebi que havia me envolvido no jogo dos limiares da razão e desrazão. camus lá apareceu e cuspiu no papel daquele homem esquálido. e segurou-o pela gola, dizendo que não tinha nada em suas mãos. logo vi que o jogo se complicara e que o real se confundia com o sonho, justamente através da dinâmica do absurdo. não quis jogar o jogo e logo percebi que um queria desautorizar o outro. mas foi em vão perceber isso. camus não queria desautorizá-lo. ele simplesmente o fez. sua intenção era ser a própria normalidade de sua existência. vi xamãs, filósofos, clérigos, ateus e cientistas. todos em busca da resposta à mesma pergunta: 'qual o sentido?' e todas as respostas eram iguais. todos estavam lidando com a mesma vontade de existir. e pensei o quanto era estúpida essa pergunta que vem conduzindo esses seres mutantes que se denominam humanos, já milênios. estava cansado e vi Sócrates sorrindo no mesmo instante que uma pedra acertou seu olho. seu sorriso de monalisa estava lá e davinci piscou pra mim antes de sumir. tudo estava ficando claro quando alcibiades me disse que sócrates queria homenagear as mulheres que foram apedrejadas sorrindo e gargalhando. disse indignado à alcibiades que sócrates havia tomado veneno. ele me olhou advertindo que isso era o que estava nos registros escritos. disse e partiu em busca de si próprio para governar a cidade. olhei para o lado e virgínia com seu ar sério parecia compreender tudo e me disse que eu já sabia de tudo mas não conseguia aceitar que sabia. ela correu para o rio ouse e não mais a vi por ali. o homem do robe de chambre estava lá ainda e havia outros seres com ele, fazendo fila para duelar pela subjetividade moderna. lembrei que a pergunta era estúpida! e a seriedade de virgínia voltou a aparecer pra mim. compreendi que não queria compreender nada disso. beijei o homem de robe de chambre escrevi alguma coisa em suas folhas de anotações. ele não conseguiu ler, não fora educado para compreender o que estava ali. entrei na lareira e meu corpo, esse papel, voltou a ser fogo. descartes olhou para a folha rasurada e a atirou à lareira. mas o papel ficou ali. e ainda era possível ler claramente a pequena frase, que fez alguns digladiadores sorrirem: "não caiam de amores pelo poder". eles deram as costas para descartes e sairam. a água do ouse encontrou-me na lareira envolvendo tudo que existia. de repente era só água. e a chuva continuava caindo.

quarta-feira, novembro 25, 2009

observação - gostaria de lembrar que, neste instante, existem centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro

Aos observadores de Belo Horizonte, Wayne, Minde, Châtelet, Antony, São Paulo, Évora, Mantena, Campinas, Bauru, Rio de Janeiro, Juiz de Fora, São Leopoldo, Ribeirão das Neves, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia, Loures, Mountain View, Cuiabá, Chapecó, Blumenau, Brasília, São Luís, Suzano, Iúna, Contagem, Castelo, Garibaldi, Sabará, Lisboa, Nova Lima, Tokyo, Londrina, Ouro Preto, Santos, Amadora, Monção, Caxias do Sul, Valongo, Várzea Grande, Ourinhos, Macapá, Álvaro, Sete Lagoas, Salvador, Joinville, Betim, Belém, Cascavel, Santo André, Natal, Petrópolis, Campina Grande, Remígio, Viana do Castelo, Uberlândia, Ponte de Lima, Dourados, Gravataí, Guairacá, Presidente Olegário, Teresina, Rio Grande, Niterói, Três Rios, Pirassununga, Guarulhos, Pojuca, Florianópolis, Lajeado, Entre Rios, Santa Bárbara, Santa Cruz, São Bernardo do Campo, Belford Roxo, Sapucaia, Campo Grande, Guarapuava, Olinda, Maputo, Itabuna, Boa Vista, Berlim, Marília, Patos de Minas, Vespasiano, Bern, Vila Nova de Gaia, Bologna, Bom Jardim, Taboão da Serra, Divinópolis, San Diego, Três Corações, Porto, Flores da Cunha, São Lourenço, London, Osasco, Paranacity e Ribeirão Preto: obrigado por terem nascido.

sexta-feira, novembro 06, 2009

protoquixote na metrópole

é engraçado... ver aquele menino frágil encarando o mundo. é engraçado. quando sai cedo de casa com poucos dinheiros no bolso e volta tarde com muitas dores e fadigas, dorme até às oito do dia seguinte, perdendo um dos compromissos semanais. ele fica atordoado. com a cabeça cheia de redemoinhos. custa a entender o que está fazendo no momento em que acorda. se ele toma o café quente, vem a vontade e logo libera o pouco do bolo que seu corpo faz para boiar nos rios mundo afora. mas nada é tão certo, nada está numa ordem padrão e prontamente verificável. a cada dormida é um pedaço de sua memória que quer morrer. e se não há luta, se ele não levanta e começa o dia, a maioria morre. claro que a maioria já morre normalmente. mas aquelas que sempre nos acompanham diariamente se perdem facilmente quando ele fica ali, preso em si mesmo, vivendo em suas fantasias. o fato dele começar o dia faz com que ele entre em contato de novo com o mundo, com as coisas que ele já viu, ja fez, e assim, as memórias vão voltando e chegam a formar um êxtase mimético-temporal no fim do dia... mas aí já é tarde demais e ele quer dormir, de novo. ele já pensou em gravar 24 horas de sua vida e depois editar, mas concluiu que não daria tempo de editar... o tempo é a criança que brinca no quintal, modificando-o. o quintal é a memória que também modifica a criança, inscrevendo-se no tempo. o quintal e a criança daquele menino sofre violentas modificações diárias. no fim, acaba que eles ficam muito parecidos do que eram no começo do dia, mas o processo de transformação não pode ser ignorado. ele parece mudar para permanecer o mesmo. quanta violência ele produz em si mesmo. parece que ele poderia explodir sua própria cabeça com esses movimentos de transformação. e talvez por isso o garoto fique tão cansado. com tanta informação para "processar", seu quintal, por vezes, fica parecendo um ferro velho com montanhas de crianças sobrepostas. talvez ele precisa de um empurrãozinho, de alguém que lhe mostre outras possibilidades de tratamento das informações. ao invés de processar, talvez ele precise dar vazão às informações de acordo com seus sentimentos. ora, ele não percebe, ainda, que o que importa das coisas é o que elas fazem em nós mesmos e o que fazemos nelas, com elas. se as informações nos tocam, nos misturamos a elas, nos encontramos e nos transformamos. se não nos tocam, deixamos que passem, que continuem sua jornada. mas ele não sabe isso. ele sabe outras coisas. ele sabe que se ele deixar passar uma informação sequer, ele irá sofrer muito por isso. porque ele sabe que as informações fazem parte dele e ele delas. mas isso o deixa nesse impasse atordoante. mas isso não é triste. isso é engraçado...

domingo, setembro 20, 2009

comunicação e imagens

eduardo saía cedo de casa e tomava seu café na mesma lanchonete até ter sentado em todas as cadeiras do local. quando ele certificava-se que já havia deixado sua marca em todas as cadeiras, era chegada a hora de mudar de local para fazer o desjejum. no café do zé, ele conseguiu circular nas 270 cadeiras, o equivalente a nove meses de cafés. eduardo encontrou carlinhos em apuros. em desespero carlinhos veio até dudu pedindo auxílio. eles entraram no café do zé e começaram a dialogar sobre a saga de carlinhos.

- eu te disse, cara, que tinha conhecido uma pessoa... ela chamava-se bertoldo.
- sim, carlos, vc havia me dito.
- pois é, bicho... esse cara era muito estranho... o pessoal chamava ele de ed. não entendia o porque...
- talvez seja o sobrenome... ou o segundo nome do cara...
- não! escuta essa história: bertoldo era uma pessoa sempre atenciosa, cheia de sorrisos. mas comigo, ele se abria... falava de seus desejos e sonhos, seus medos e frustrações. sempre achei que ele era uma pessoa comum, como todos. cheia de problemas psicológicos e cheia de felicidades extasiantes, fugazes e capazes de nos iludir com a idéia de um futuro sereno e sempre melhor que hoje. acontece que bertoldo não parecia ele mesmo quando eu o via com as outras pessoas. ocorreu, em um restaurante que ele costumava frequentar, uma coisa muito bizarra. no final do nosso jantar. uma pessoa se aproximou pedindo para tirar foto com ele, chamando-o de eddie murphy, dizendo que amava seu trabalho. bertoldo, sempre muito amável, sorriu e gargalhou exatamente como o eddie. nesse momento eu passei a entender que era de eddie e não ed que as pessoas o chamavam. enfim, ele sorriu, com aquele bigodinho todo cortado à la um tira da pesada, fez uma piadinha infame, como o próprio murphy, assinou uma camisa e um boné para o senhor, despediu-se e voltou para a mesa!
- o que tem demais nisso, carlin?
- pô edu, deixe-me terminar...
- ok.!
- bom, o cara olhou para mim e... PORRA! ele não era nada parecido com eddie murphy. eu virei para ele e disse: "diz aí bertoldo, porque eles acham que você é o eddie murphy?" ele me respondeu que ele era muito parecido com ele. e que não gostava de decepcionar as pessoas que os confundiam. repeti a pergunta: "mas, porra! tu não tem nada a ver com ele, cara! e não é só porque vc é branquelão, não! tu parece mais a meryl streep do que o eddie." eu te digo, o cara ferveu...

(no mesmo instante em que carlos proferiu aquelas palavras, o cérebro de bertoldo liberou, em questão de milésimos de segundos diversos tipos de substâncias, que deixaram a corrente sanguínea mais agitada. a primeira leva que chegou ao coração fez este músculo vibrar com uma intensidade tamanha, que o sangue bombeado começou a vaporizar. em menos de meio segundo todo o sangue já se encontrava em pleno estado de ebulição. retornando em seguida ao cérebro, que em um lance de lince enviou um comando ao seu punho fechado, que avançou violentamente no espaço, provocando grande turbilhão de ar por onde passava. seu punho passou como um cartucho rente à orelha de carlinhos, acertando a mesa em que estavam.)

- o cara me socou! mas eu desviei...

(carlinhos observou a face de bertoldo, que em menos de um segundo passou de alva para pimentão vermelho, progressivamente. foi possível observar o sangue de bertoldo circulando entre seus olhos, fazendo vibrar suas veias oculares. observando o belo conjunto da transformação da raiva em seu corpo, de sinapses ao impulso que o cotovelo dá ao punho, carlinhos percebeu que era o momento de agir. deslocando seu corpo mirrado cerca de alguns milímetros para sua esquerda, conseguiu escapar de um algo que poderia ser um longo desvio da sua rotina.)

- perguntei se ele tinha achado ruim compará-lo a uma mulher e a resposta foi negativa. mas naquele momento, ainda não conhecia a história obscura desse desfortunado. ele disse-me que era obrigado a ser o que as pessoas quisessem que ele fosse... e que não gostava quando as pessoas inventavam mais uma identidade para ele... a partir daquele instante ele passaria a ser meryl streep diante de mim.
- pô, carlinhos. até que a meryl não é uma má companhia!
- sim! mas isto não está em questão. escute! o cara ficou cada vez mais parecido com a meryl e até fez aquele olhar dela ao terminar uma taça de vinho branco. eu gelei, cara. pensei que estava ficando um tanto alterado: “poderia ser o álcool”, imaginei já ansioso. e não é que o cara passou a ser, a se comportar como a meryl desde então?
- é carlinhos, você finalmente está enfrentando isso!...
- isso o que, dudu?
- pô, carlinhos! ainda não sacou?
- eduardo, tu tá me fritando já! conta logo, pô!
- carlinhos, pense um pouco. olhe ao seu redor...

e então carlinhos se virou e percebeu o óbvio! que as pessoas se comportavam a partir das expectativas de seus parceiros. a cena era absurda. ele conhecia algumas pessoas do café, e viu que essas pessoas se comportavam exatamente como ele as imaginava sempre que estavam perto dele. outras pessoas comportavam-se de forma distinta da que ele designava à elas, mesmo assim elas continuavam parecidas com a idéia que ele tinha delas. carlinhos ficou desconcertado e começou a compreender. olhou para o zé e percebeu que ele estava catando comida do chão e recolocando num prato de um cliente, exatamente como ele o pintara em sua galeria de percepções. eduardo continuava sério e austero – ele sempre fora assim diante de carlinhos.

- olha carlinhos, as pessoas são o que são a partir de todo uma complexa rede de percepção e criação imaginativa, simbólica e lógica que realizamos quando entramos em contato com diferentes pontos que ajudam a compor essa rede. você possui centenas de juízos de valores e os conjuga quando conhece alguém, formando uma imagem daquele novo conhecido. essa imagem vai se construindo ao longo da relação e, geralmente, privilegiamos os juízos que mais nos impactaram. com isso percebemos mais as características que nos interessa, compreende?
- poxa dudu, sempre te achei inteligente, sério e austero.

eduardo sempre tinha notado que carlinhos era um babaca e um tanto quanto idiota, ou submisso. irritado, ele olhou no relógio (afinal ele era um homem sério, diante de carlinhos) levantou-se e pediu desculpas mas teria de deixá-lo por estar atrasado. carlinhos, pediu desculpas por tanto incômodo, disse que pagaria aquele desjejum. ao fim, convidou dudu para juntar-se a ele em sua casa no fim de semana, como sinal de desculpas sinceras. eduardo balançou a cabeça levemente para baixo, confirmando, indo-se logo depois. carlinhos ficou ali, esperando bertoldo chegar e lançar seu olhar de meryl streep.

segunda-feira, agosto 03, 2009

crônica de BH ou reflexão ética do meu cotidiano na sociedade dos automóveis

aos leitores ávidos deste blog, peço desculpas pela pequena pausa de dois dias. mas aqui estou de volta para mostrar à vocês, não minha escrita magnífica, não minhas idéias estupendas, nem minhas teses sublimes, mas sim o que vocês leitores querem: o reconhecimento de uma coletividade. eis que aqui estou a escrever sobre a crônica cotidiânica nesta cidade galvânica. cidade que me fez descer do ônibus e olhar para um aparelho de som antigo com toca disco – hoje, falar da tecnologia de meados da década de 1990 é falar de antigo. achei o som caro, apesar de não estar caro. interessante é que não comprei o aparelho, mas, nas duas últimas semanas gastei quase metade do preço do som em livros. talvez seja a hora de parar de gastar em livros e passar a gastar em música, mas os aparelhos de tocar disco ficaram muito caros! os vendedores conhecem os cidadãos modernos que esta cidade possui e sabe que os modernos gostam mesmo é de vinil. não comprei o som e continuo sem escutar meus LP's. cRássicos como Brasil do RDP e a coletânea Plunct, Plact Zuuum. de Van Halen aos Trapalhões. de Mukeka di Rato ao metal dos anos 80. todos estão ali, no canto direito superior da minha estante, esperando pelo júbilo da próxima rotação. cidade que me faz lutar com os veículos motorizados durante minhas caminhadas, e me faz andar meros 30 minutos, de ônibus, da minha casa à universidade. um belo exemplo do progresso! progresso, esse, que faz propaganda das melhorias da avenida com a foto de uma criança. um belo exemplo de pedofilia institucional. um belo circo dos horrores: onde se divertem 'trabalhadores' e 'vagabundos' vendo máquinas atuarem nesse belo enredo chamado modernidade. máquinas dirigidas por seres humanos, claro. mas no espetáculo, é a máquina que toma a cena: cortando árvores centenárias e arquiteturas menos importantes. no final do espetáculo a cena é tomada pelo joão-bobo da vez, abraçando idosas felizes e beijando crianças catarrentas. os antigos gostam de beijos dos senhores taumaturgos, com cara de palhaço, e os modernos sabem disso, levando o pogResso para o povo. cidade que me faz ficar com medo de uma tosse, mas ao mesmo tempo tranquilo, já que o calor não propicia a disseminação do vírus de forma tão avassaladora: mas morre-se de gripe, afinal! seja suína ou do porco humano. os modernos gostam mesmo é de se comunicar e a onda forte dessa praia é fazer do mundo um imenso caos, que precisa da modernidade para se salvar. cidade que me fez amar e odiar, desejar e sexualizar situações, que me fez perceber o corpo e o prazer. o corpo como não lugar, o utópico, como um lugar ainda por se escrever e, mesmo com o biopoder, um espaço aberto para a fazer da vida uma obra de arte. o prazer como balizador do exercício ético da minha existência. os modernos gostam mais é de achar que são reprimidos, mas são mesmos é produtores de inúmeros plásticos e produtos virtuais, criados graças ao silício, capazes de satisfazer suas supostas fantasias reprimidas. eis que, mesmo que os leitores sequiosos não tenham sentido empatia, ou identificado nenhum traço de coletividade – e talvez por isso mesmo – termino esta crônica cotidiânica com a sensação de ter contribuído com meu desenvolvimento interior: o que poderá transformar minha relação com vocês, meus caros e infindáveis leitores. E, ainda, com a alegria de poder contribuir com uma hipótese do Pedro, que inspirou-me ultimamente: o alfredinho tava mais preocupado em construir um projeto para a nação, e construí-la, consequentemente, do que em falar a verdadeira verdade sobre BH - a verdade, e a luta por torná-la verdade, seria um mero artifício para construir (um)a república, a república dos bruzundangas, talvez.