quarta-feira, novembro 25, 2009
observação - gostaria de lembrar que, neste instante, existem centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro
sexta-feira, novembro 06, 2009
protoquixote na metrópole
domingo, setembro 20, 2009
comunicação e imagens
- eu te disse, cara, que tinha conhecido uma pessoa... ela chamava-se bertoldo.
- sim, carlos, vc havia me dito.
- pois é, bicho... esse cara era muito estranho... o pessoal chamava ele de ed. não entendia o porque...
- talvez seja o sobrenome... ou o segundo nome do cara...
- não! escuta essa história: bertoldo era uma pessoa sempre atenciosa, cheia de sorrisos. mas comigo, ele se abria... falava de seus desejos e sonhos, seus medos e frustrações. sempre achei que ele era uma pessoa comum, como todos. cheia de problemas psicológicos e cheia de felicidades extasiantes, fugazes e capazes de nos iludir com a idéia de um futuro sereno e sempre melhor que hoje. acontece que bertoldo não parecia ele mesmo quando eu o via com as outras pessoas. ocorreu, em um restaurante que ele costumava frequentar, uma coisa muito bizarra. no final do nosso jantar. uma pessoa se aproximou pedindo para tirar foto com ele, chamando-o de eddie murphy, dizendo que amava seu trabalho. bertoldo, sempre muito amável, sorriu e gargalhou exatamente como o eddie. nesse momento eu passei a entender que era de eddie e não ed que as pessoas o chamavam. enfim, ele sorriu, com aquele bigodinho todo cortado à la um tira da pesada, fez uma piadinha infame, como o próprio murphy, assinou uma camisa e um boné para o senhor, despediu-se e voltou para a mesa!
- o que tem demais nisso, carlin?
- pô edu, deixe-me terminar...
- ok.!
- bom, o cara olhou para mim e... PORRA! ele não era nada parecido com eddie murphy. eu virei para ele e disse: "diz aí bertoldo, porque eles acham que você é o eddie murphy?" ele me respondeu que ele era muito parecido com ele. e que não gostava de decepcionar as pessoas que os confundiam. repeti a pergunta: "mas, porra! tu não tem nada a ver com ele, cara! e não é só porque vc é branquelão, não! tu parece mais a meryl streep do que o eddie." eu te digo, o cara ferveu...
(no mesmo instante em que carlos proferiu aquelas palavras, o cérebro de bertoldo liberou, em questão de milésimos de segundos diversos tipos de substâncias, que deixaram a corrente sanguínea mais agitada. a primeira leva que chegou ao coração fez este músculo vibrar com uma intensidade tamanha, que o sangue bombeado começou a vaporizar. em menos de meio segundo todo o sangue já se encontrava em pleno estado de ebulição. retornando em seguida ao cérebro, que em um lance de lince enviou um comando ao seu punho fechado, que avançou violentamente no espaço, provocando grande turbilhão de ar por onde passava. seu punho passou como um cartucho rente à orelha de carlinhos, acertando a mesa em que estavam.)
- o cara me socou! mas eu desviei...
(carlinhos observou a face de bertoldo, que em menos de um segundo passou de alva para pimentão vermelho, progressivamente. foi possível observar o sangue de bertoldo circulando entre seus olhos, fazendo vibrar suas veias oculares. observando o belo conjunto da transformação da raiva em seu corpo, de sinapses ao impulso que o cotovelo dá ao punho, carlinhos percebeu que era o momento de agir. deslocando seu corpo mirrado cerca de alguns milímetros para sua esquerda, conseguiu escapar de um algo que poderia ser um longo desvio da sua rotina.)
- perguntei se ele tinha achado ruim compará-lo a uma mulher e a resposta foi negativa. mas naquele momento, ainda não conhecia a história obscura desse desfortunado. ele disse-me que era obrigado a ser o que as pessoas quisessem que ele fosse... e que não gostava quando as pessoas inventavam mais uma identidade para ele... a partir daquele instante ele passaria a ser meryl streep diante de mim.
- pô, carlinhos. até que a meryl não é uma má companhia!
- sim! mas isto não está em questão. escute! o cara ficou cada vez mais parecido com a meryl e até fez aquele olhar dela ao terminar uma taça de vinho branco. eu gelei, cara. pensei que estava ficando um tanto alterado: “poderia ser o álcool”, imaginei já ansioso. e não é que o cara passou a ser, a se comportar como a meryl desde então?
- é carlinhos, você finalmente está enfrentando isso!...
- isso o que, dudu?
- pô, carlinhos! ainda não sacou?
- eduardo, tu tá me fritando já! conta logo, pô!
- carlinhos, pense um pouco. olhe ao seu redor...
e então carlinhos se virou e percebeu o óbvio! que as pessoas se comportavam a partir das expectativas de seus parceiros. a cena era absurda. ele conhecia algumas pessoas do café, e viu que essas pessoas se comportavam exatamente como ele as imaginava sempre que estavam perto dele. outras pessoas comportavam-se de forma distinta da que ele designava à elas, mesmo assim elas continuavam parecidas com a idéia que ele tinha delas. carlinhos ficou desconcertado e começou a compreender. olhou para o zé e percebeu que ele estava catando comida do chão e recolocando num prato de um cliente, exatamente como ele o pintara em sua galeria de percepções. eduardo continuava sério e austero – ele sempre fora assim diante de carlinhos.
- olha carlinhos, as pessoas são o que são a partir de todo uma complexa rede de percepção e criação imaginativa, simbólica e lógica que realizamos quando entramos em contato com diferentes pontos que ajudam a compor essa rede. você possui centenas de juízos de valores e os conjuga quando conhece alguém, formando uma imagem daquele novo conhecido. essa imagem vai se construindo ao longo da relação e, geralmente, privilegiamos os juízos que mais nos impactaram. com isso percebemos mais as características que nos interessa, compreende?
- poxa dudu, sempre te achei inteligente, sério e austero.
eduardo sempre tinha notado que carlinhos era um babaca e um tanto quanto idiota, ou submisso. irritado, ele olhou no relógio (afinal ele era um homem sério, diante de carlinhos) levantou-se e pediu desculpas mas teria de deixá-lo por estar atrasado. carlinhos, pediu desculpas por tanto incômodo, disse que pagaria aquele desjejum. ao fim, convidou dudu para juntar-se a ele em sua casa no fim de semana, como sinal de desculpas sinceras. eduardo balançou a cabeça levemente para baixo, confirmando, indo-se logo depois. carlinhos ficou ali, esperando bertoldo chegar e lançar seu olhar de meryl streep.
segunda-feira, agosto 03, 2009
crônica de BH ou reflexão ética do meu cotidiano na sociedade dos automóveis
quarta-feira, julho 08, 2009
do escrito - 08/07/09
quarta-feira, abril 29, 2009
de pensações
quinta-feira, abril 09, 2009
de tempestades e clarões
ao entrar na mata essas contendas começaram a dar as caras. e a força bruta havia acabado de ser utilizada. a mudança foi rápida e brusca. ela já estava dentro da mata e a chuva desabou sobre as árvores que lhe davam sombra. apressou o passo. começou a correr. mais adiante um raio surgiu clareando tudo em sua volta. de forma que nada mais podia ver. ela caiu. estava sem sentidos. ao se levantar a chuva já havia ido embora. mas deixou suas marcas no solo. seguiu adiante, acreditando já ter perdido seus compromissos. caminhou sempre em frente. cinco minutos se passaram e percebeu que havia algo errado. o caminho não acabava. e nada lhe parecia mais como antes. correu. sempre nos limites do caminho. mas de nada adiantava. ela sentia-se vigiada. percebeu que outros seres também corriam paralelamente à sua linha de corrida. de repente escorregou e desceu barranco abaixo.
sua queda espantou um grupo de amigos que se concentravam ao redor de um banquete. as pessoas voltaram curiosas para ver aquele corpo caído. gritaram ao se olharem! mais correria. agora dispersa e sem direção predeterminada. o tropeço veio rápido. ela não estava acostumada a correr em matas fechadas. pensou consigo que estava ficando louca. "o que tem demais encontrar um bando de jovens estranhamente vestidos, fazendo um pic nic? eles deviam estar bolando algum, ou coisa parecida". riu de si. levantou e tentou encontrar a antiga trilha.
algum tempo depois ela cansou-se e sentou sua bunda num galho caído. mas alguém a havia seguido. tentou uma aproximação amigável. ela se armou! a comunicação foi difícil! os dois ficavam grunindo palavras incompreensíveis um para o outro. acabaram por manter uma relação por gestos. demorou muito para que esses gestos fizessem um mínimo de sentido. se ela não percebesse na face do outro que sua vontade era um diálogo, dificilmente as coisas se dariam como se deram. ambos acharam muito estranho encontrar com uma pessoa de outra língua. logo ali, perto de suas atividades cotidianas. "deve ser visitante de outro país", pensaram. mas logo ela percebeu que estava em outro lugar. que a mata era maior do que o normal, e que não era possível encontrar todos os aparatos técnicos da comunidade de seu novo interlocutor tão porto do campus. não sabia se estava sonhando, se havia enlouquecido, se havia dormido tanto a ponto de não ver o tempo passar, ou se o passado viera até ela e a tinha engolido, envolvendo-a em sua totatlidade.
reconhecendo certos sinais, acreditou ainda estar em um espaço de tempo relativamente perto de sua vida pré-tempestade. mas ficou intrigada pois não via carros destruídos, ou prédios altos. tampouco uma organização comparada às sociedades que já estudara. nunca tinha ouvido falar sobre alguma sociedade em que a coletividade e a individualidade andavam lado a lado. em que as decisões eram tomadas em conjunto e por quem quisesse tomar parte na grande assembléia que se dispunha a resolver seus problemas. ela chegou a falar certos conceitos que tinha conhecimento, mas nada conseguiu tirar das reações dos seus novos companheiros. a organização espacial daquela sociedade era algo que nunca havia pensado. haviam famílias enormes, mas cujo papel centralizador não era o pai ou a mãe, mas a própria solidariedade. a produção alimentícia era coletiva e tomava uma hora diária de cada um. mas esse "tempo de horas" não existia por lá. o tempo era medido sob outra lógica. existia o tempo de trabalho: contado pelo cansaço, suor e necessidade. o cálculo dessas três variáveis geralmente correspondia a uma hora diária do tempo pré-tempestade. as outras partes dos dias e noites eram aproveitadas pela livre vontade de criação: as pessoas expressavam seus sentimentos e desejos com esculturas, música, poesias e outras escrituras. os problemas de ordem organizacional tinham sua vez em reuniões para resolver contendas como: conflitos, escassez de comida, de material de sociabilidade, de utilização do espaço (que era sempre público, nunca privado. o que quer dizer que não pertencia nem a um estado, nem a qualquer pessoa comum). a festa era uma prática cotidiana. por isso a produção de pratos e bebidas tomavam sempre um tempo maior e mais coletivo. o revezamento no fogão era constante. assim, todos brincavam e produziam materiais para a brincadeira.
sua chegada, apesar de levantar uma pequena crise sobre a organização interna, foi vista com bons olhos. os participantes da assembléia se viram na necessidade de realizar uma reflexão sobre a questão da comunicação entre diferentes línguas, mas nada que não tenha sido rapidamente colocado em prática. as crises eram frequentes e as soluções, sempre sensatas e sugeridas no seio do debate, eram logo colocadas em prática. assim, ela foi acolhida com alegria e solidariedade. convidaram-na para participar da preparação da festa noturna: colheita de hortaliças, fermentação do álcool e invenção de danças e performances corporais.
ela ficou maravilhada! acabou entrando em transe durante a festa. nunca havia sentido tanta felicidade, tanto prazer, tanto êxtase em um só momento. seu corpo estava lado a lado de sua alma. e nada parecia tão real e tão mágico ao mesmo tempo. a produção de algo tão prazeroso a fez sentir que aquela sociedade buscava colocar em prática a vida plena da alma e do corpo. ela, então, caiu num amontoado macio de pano que era usado para os repousos. de olhos fechados ainda podia sentir os ritmos dos prazeres da festa. acordou com uma chuva que caia calmamente, mas firme. levantou-se e se percebeu no mesmo caminho que usava para atravessar a mata. levantou-se e compreendeu que estivera ali desde o momento do clarão. olhou ao seu redor e percebeu que havia uma árvore de porte médio com vestígios de fogo. "havia sonhado", pensou. seguiu até o fim da trilha, olhou para trás e sentiu um aperto e seu peito. angustiada, colocou a mão em seu colo e sentiu um pingente, que antes não existia ali. olhou-o com ternura e carinho. dezenas de músculos se moveram e sua face e um sorriso surgiu. sentiu-se forte e com a certeza de que podia fazer de si uma vida plena e capaz de, como seus amigos efêmeros, realizar a fruição das necessidades de seu corpo e sua alma. preferiu, entretanto, seguir minando o mundo em que vive a partir da própria lógica desse mundo, sonhando com a próxima visita aos seus amigos pós-tempestade.
terça-feira, março 17, 2009
confissões de uma criança. ou quando me vestia de mulher
"mas se a pessoa coloca-se a dúvida se ela é ou não. ela já é", disse sua amiga.
a criança se cala. se põe a pensar. "não haveria outra forma de colocar a questão? seria essa a única maneira de compreender a situação? ou melhor, a única forma possível de imaginar essas relações? ser ou não ser? e se o caso, ou ainda, o ponto central do problema fosse outro? e se fosse do verbo estar?" os franceses não captariam logo a diferença. mas ela mudaria todo o jogo. se, ao invés, de 'ser' a pessoa 'estivesse' em tal ou tal posição, com tal ou tal disposição, de tal ou tal maneira, as coisas teriam aí uma outra perspectiva. os pontos de fuga poderiam multiplicar-se. e as centelhas espalhar-se-iam à deriva pelos espaços dos platôs, em constante interação. "a coisa não poderia ser tão fechada assim", ele pensava. se assim fosse, ele seria sempre um entra e sai de 'seres', que desapareceriam, ou cristarizariam em sua imagem, em seu corpo. não era isso que ele 'era'. se tivesse que usar o verbo ser, ele optaria por introduzí-lo em uma única proposição: sou uma constante etapa de 'estâncias', um colóquio infinito de 'estares' em relação aos territórios que ocupo, conquisto, reformo, transpasso, ignoro, desfaço, construo e abandono.
se 'tudo' tomasse parte desse infinito diálogo, logo teria de assumir que 'nada' faria parte dele, e tão logo pronunciasse essas palavras ele seria tudo. e o paradoxo 35 estaria, aí, em gestação.
mas a proposta não era ser tudo, ou nada. tampouco estar em tudo. mas, pelo contrário, estar em tudo, todo e qualquer lugar que lhe fosse possível. em lugares e espaços negados, desperdiçados e inutilizados. becos e matos despercebidos seriam alvo de seus estares. corpos nus e cobertos, fechados ou abertos, furados, vazados, coloridos, sujos ou diagramados estariam consigo, em si, e transpassando-o. corpos à deriva, como o seu, inertes, como de sua amiga, seriam as locações de suas estadias, de seus sonhos e planos, de suas experiências e ações. pouco importando a condição dos seres e como eles conduziriam suas vidas. o problema seria menos 'como definir-se nesse mundo desfigurado e opressor?', menos 'decida-se ou te devoro', menos 'é preciso acalmar o espírito nesses tempos sombrios e cruéis", do que "como construir múltiplas frentes de batalhas para a constante reestruturação das fronteiras e dos espaços estacionáveis e, por isso, rotativos. como construir platôs, salas de estares ambulantes, campos de descentralização, e, finalmente, uma ética plural?."
sábado, fevereiro 07, 2009
de carteiras e sapatos
ô menino, disse minha tia, tenta esse aqui! o troço entrou, e fez meus sustentáculos latejarem.
minha expressão foi justamente o contrário! 'claro que serviu tia! nossa! muito obrigado!' "tem certeza que não tá apertando?" 'claro! absoluta!' o que eu poderia fazer? era minha última chance antes de gastar uma nota com uma coisa que não iria usar! levantei-me e arrebentei meu côco no lustre baixo do quarto de meu primo. vi estrelas. legal! agora tinha dores em duas extremidades do corpo. uma para esquecer a outra! os chineses são bons nessas experiências! que idéia boa essa, não? "e a gravata,? leva essa aqui!" ela parecia seda de cuecas, como disse minha avó, mas era a melhor do mundo naquele momento. faltava-me achar o outro pé da minha meia. ótima busca. roupas para o chão, na cama, viradas e reviradas e nada. é hora de dobrar as peças espalhadas e encarar o sapato com meias grossas. mas será que minha vó não teria uma meia fina? tem meia-calça! disse ela. bom, pelo menos ninguém verá minhas pernas, não haverá muito mal. mas ela encontrou uma soquete antes de decidir-me pela LOBA. beleza, mais uma dívida: pagar a meia destruída da vovó. no fim, tudo certo. vestido, bati com os dedos com toda força no batente da porta, para esquecer-me do pé e segui para a festa. quinze minutos depois da entrada triunfal eu já estava sem paletó, gravata, sapato e com as mangas arriadas, sorrindo feliz para os noivos que passaram pedindo votos dos convidados. valeu o esforço: a noite foi boa junto à minha amada, especialmente após a chuva que tomamos na saída da festa. de uma coisa eu sei: tenho que pensar melhor sobre a idéia de comprar um sapato.
terça-feira, janeiro 20, 2009
pirofagiando em segredo. ou. tão distante da tabacaria que parece próximo dum platô.
mas não pedi sua opinião, jorge.
direi mesmo assim. eu acho isso tudo uma bela merda. uma bela montanha de merda mole.
droga, meu cigarro apagou e eu tenho que ficar te ouvindo dizer besteiras, jorge!
é sério, cara! toda essa baboseira de esperança de um mundo melhor com um presidente negro. o porra do cara é presidente, cê entendeu? presidente. que porra vai mudar, cara?
jorge, as coisas não são assim, as pessoas precisam dessa merda toda. senão, como elas vão sair à noite para pagar pra caras e mulheres lhes darem aquela chupada, que seus maridos e esposas não podem dar?
você é um estúpido, cara! ninguém precisa de presidente nenhum. nem de chupada gostosa. essa merda toda é uma bela sacanagem sustentada por seu alcoolismo.
eu não coloco sua mãe no meio, então respeite minha relação com o álcool, jorge.
ok, tu fica aí enchendo a cabeça de cachaça, enquanto teus filhos comem carangueiros podres que se alimentam da merda produzida na cidade. enquanto eu fico aqui, provando para o mundo que eu não preciso de presidente de porra nenhuma.
jorge, tu tá berrando no meu ouvido! eu tô do teu lado, sacana!
isso! fica fazendo posinha de delicado, seu merda!
caralho, jorge, a rua inteira tá querendo te dar um sopapo!
eu pego é todo mundo no bondage, cara! faço uns enemas e tá limpo!
não comece com suas coisas de tortura!
tortura? porra, os cara te fazem pagar um imposto sobre a tua casa, uma invenção mais idiota e antiga, e tu vem falar que gozar com um pouco de sangue é tortura? tu trabalha como a velha a fiar, sem parar para pensar no que fazes de ti, e dar umazinha que é tortura?
não irrita, jorge, eu tô sem saco, hoje!
porra! tu tá nessa de virar eunuco e nem me chama pra festa?! sacanagem, cara!
jorge, eu te soco hoje!
tu tem que parar de ser um cagalhão. tu fica aí sentado, sem fazer nada, enchendo a cara.
ah, vá se fuder!
é sério, cara! eu mesmo tô aí, tô aqui, tô até na internet! eu faço é muita coisa, cara! fico limpando cadeira com o cu, não.! vou pra luta é armado de palavras.
como que é isso?
bom, os caras começam a me bater e eu fico lá recitando Fernando Pessoa. os cara param de me bater para ouvir os poemas do cara. pô Fernando Pessoa é o cara!
e tu lá sabe um poema de Fernando Pessoa?
saber eu não sei não, mas decorei um, quer ver? : "eu sô é nada, nunca vô sê é nada, não posso querer sê é nada. da parte disso, tenho todo sonho do mundo. Hoje eu tô abobado, como que pensei e achei e esqueci. hoje eu tô é dividido entre a lealdade que devo à tabacaria da esquina, como coisa que é real de fora, e ao sentimendo de que tudo é sonho, como coisa que é real de dentro."
ô jorge, pára, cara!
mas eu tava terminando! ele é grande, mas eu decorei tudo. e quando eu falo as pessoas param de brigar e choram! primeiro elas riem, depois você vê toda a lágrima saindo dos olhos frios e vazios delas.
cê fala essas coisas pra polícia e ela não te bate mais, não?
não! eles ficam sensíveis! imagina, um revolucionário que não pega em armas e sabe de cor uma poesia de Fernando Pessoa!
cara, eu acho que tu precisa é parar com essa birita.
eu não bebo há três dias.
e esse cheiro de cachaça, jorge?
é que fez três dias e eu não aguentei. tomei umas. mas isso não faz de mim um mentiroso, cara! isso tudo é um monte de merda fedida e molinha. o pessoal lá de gaza não ganha muita coisa com esse presidente, não. aliás, nem tu. a não ser esperança de merda, de comprar mais merda.
jorge, mas tu tá um pessimista idiota, hein? que que tu sabe de gaza?
tô pessimista, não. eu creio em coisas boas, cara! essa é a diferença. eu penso em coisas boas. não fico lamentando: oh! meu querido governo cobra de mim e não me dá nada. não brinco com essa merda. minha merda é outra, cara. existe uma multiplicidade de merdas a serem formuladas. um sem-número de singularidades múltiplas. eu faço minha própria merda, cara.
ainda bem, né jorge?
é sério! eu corro atrás, e tudo mais.
mas tu chegou onde está como?
não venha me dizer que eu devo minha vida ao governo, cara! minha vida eu devo aos meus. aos que a fizeram ao meu lado. àqueles que estiveram juntos na minha caminhada, e não à essa merda toda.
de alguma forma você está aí por conta dessa merda toda, jorge.
eu sei.
então não sacaneia, jorge.
mas essa merda toda não precisa ser a merda que eu vou carregar até o fim da vida. então eu faço minha própria merda, cara! meu próprio caminho.
tu é um individualista doidão, jorge!
não! é aí que tu se engana, cara! eu sou eu, claro! mas eu também! sacou? também! sou muito mais. e minha merda é feita disso tudo!
tu tá meio esquisito hoje, jorge.
é que vi um filme estranho.
é mesmo? tu vendo filmes?
não encha o saco, cara. filmes também são essa merda toda, só que mais cheirosos. aliás, a coisa mais legal que tem por aí é a música, mas ela tá cheirando como você, cara!
eu vou dizer o que eu penso, jorge: nisso você tem um pouco de razão.
então, vê se pára de ficar sentado aí, seu merdinha. eu já estou por aí:
"e o universo me fez de novo sem ideal, sem esperança, e o dono da tabacaria olhô pra mim e sorriu."...
sábado, novembro 15, 2008
conversação
...mas acontece que uma realidade encontra a outra, o passado reclama o respeito aos seus títulos, o presente, a princípio, inclina-se diante da primazia e nobreza do passado, mas reclama e quer impor os seus próprios valores, pois o que vive tem sempre razão. Nem sempre nessa luta o presente vence o passado, ou aceita apenas aquilo que é vivo do passado; muitas vezes o passado derrota o presente e faz nascer um futuro alquebrado. O dever do historiador não é para com os mortos, nem o culto do passado pelo passado deve ser nosso princípio. É em nome do presente que julgamos o passado, pois não há passado puro e único, mas mutável como a história, de acordo com a visão interessada do presente. JR
Temos uma responsabilidade pelos fatos históricos em geral e pela crítica do abuso político-ideológico da história
As relações da História com o Presente da História com a Vida e com a Ação têm sido tratadas por filósofos, pensadores e historiadores. É a História um poder ativo, que determine ou condicione o presente, que nos force ou nos sugira meios de ação, agens ou potente da vida? JR
O cronista que narra indiscriminadamente os acontecimentos, sem distinguir grandes e pequenos, leva com isso em conta a verdade de que nada do que jamais aconteceu pode ser dado por perdido para a história. Certamente, só à humanidade redimida cabe o passado em sua plenitude. Isso quer dizer: só à humanidade redimida o seu passado tornou-se citável em cada um dos seus momentos. Cada um dos momentos vividos por ela torna-se uma citation à l’ordre du jour – dia que é, justamente, o do juízo final. WB
Deus não é dos mortos, mas dos vivos, porque, para ele todos são vivos. A história também não é dos mortos, mas dos vivos, pois ela é a realidade presente, obrigatória para a consciência, frutífera para a experiência. A vida e a realidade são história, gerando passado e futuro. JR
A história universal pode atingir uma variedade maior. Por uma teoria das multiplicidades por elas mesmas, no ponto em que o múltiplo passa ao estado de substantivo. As multiplicidades são a própria realidade, e não supõem nenhuma unidade, não entram em nenhuma totalidade e tampouco remetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações são, ao contrário, processos que se produzem e aparecem nas multiplicidades. Os princípios característicos das multiplicidades concernem a seus elementos, que são singularidades; as suas relações, que são devires; a seus acontecimentos que são hecceidades (quer dizer, individuações sem sujeito); a seus espaços-tempos, que são espaços e tempos livres; a seu modelo de realização, que é o rizoma (por oposição ao modelo da árvore); aos vetores que as atravessam, e que constituem territórios e graus de desterritorialização. Em todo caso, a questão é: onde e como se faz tal encontro? GD&FG
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
uma chuva de granito ou a desconfiança do conceito de progresso.
quarta-feira, janeiro 30, 2008
aperfeiçoamento da articulação lógica e retórica sob os efeitos da ilusão da coesão hierárquica do mundo social. I (por um cidadão comum)
sexta-feira, janeiro 04, 2008
brincando de reconhecer
Descobri o nome daquele que causa os “sinistros”, que minha avó tanto fala. 'Sinistro' era como ela chamava meu tio, o “desastrado” da família. E ele sempre foi uma referência quando eu quebrava algum copo ou derrubava feijão na toalha limpa, pois ela se apressava a contar alguma história de outros "sinistros" cometidos por aquele tio. Sempre achei que não era nossa culpa, e hoje creio que tinha razão. Descobri ainda que quem causa esses "sinistros" é aquele anão corcunda sobre o qual o alemão falava na primeira tese, que se esconde na mesa de xadrez da história e que conduz com cordéis a mão do fantoche que joga. Talvez seja deus, talvez seja simplesmente o acaso. Talvez aquele alemão teria pensado que o controle do jogo provinha de algo mais místico que o acaso, mas prefiro este para entender o papel que aquele anão, o corcundinha, representa. Se só uma sociedade redimida pode citar seu passado em cada um de seus momentos, e se essas citações só são possíveis no dia do juízo final, da redenção, como disse o teutônico, então durante aquela famosa retomada de nosso passado, segundos antes da morte, quem apareceria para fazer com que reconheçamos inteiramente nossa trajetória seria o corcundinha. Mas qual o sentido de esperar a morte para nos rendermos à reflexão sobre o que estamos fazendo de nós? Se não podemos lutar contra o acaso, contra o imprevisível corcundinha, podemos, ao menos, aprender com ele e retomar os objetivos dos nossos projetos. O que esperamos do porvir quase nunca vem da forma como concebemos inicialmente, assim creio que o que faz a humanidade seguir adiante é a habilidade de lidar com essas casualidades. Não estou dizendo que nossas vidas são feitas somente de acasos, mas sim que essas ocasiões são propícias para refletirmos sobre nossa trajetória, e, quem sabe, mudarmos alguns rumos. O problema é que nunca vemos o corcundinha. Só ele nos vê. Só ele pode lançar um olhar para nós, e é com esse olhar que as coisas começam. Nos resta exercitar nossas habilidades de disputar aquele jogo, de regras eventualmente modificáveis, para percebermos com mais clareza os movimentos das peças. Já que o corcundinha não pode escolher nenhum lado, e efetivamente não escolhe, restou para a humanidade desenvolver uma capacidade – ou mais de uma – eficiente de superar os estragos causados pelo imprevisto, e cada sociedade dá seu jeito. Alguns de nossos modernos antepassados – aqueles que se acreditavam herdeiros do outro lado do Atlântico – temiam o imprevisto e lutaram para vencer o corcundinha. A modernidade – confundida com o capitalismo – criou inúmeras fórmulas e leis para superar esse problema, que atuava (e atua) em todos os espaços da vida. Hoje milhões de brasileiros lutam contra as adversidades da vida cotidiana, mas, ironicamente, para muitos o acaso é na verdade o contrário daquele que amedrontava nossos queridos antepassados moderninhos – isso para não colocar sempre nossas queridas elites contemporâneas na história. Enfim, descobri o nome daquele que me faz quebrar um copo nas condições mais adversas para que isso ocorra. E descobri que o exercício que fazemos só pode ser feito se reconhecermos as transformações, – no plural, diferentemente do que o alemão pensou – as mais imperceptíveis de todas. Eu posso chorar pelo copo perdido ou dar novos usos para aquelas peças de vidro, aparentemente inúteis.
quarta-feira, novembro 21, 2007
As cores são andróginas, vermelho é vermelha. mas não há conflito de gênero: ele só aparece quando relacionamos as cores com os sujeitos e objetos.
na avenida movimentada
quando transformou-se em
vermelho.
logo ali
no corredor de ônibus.
transformou-se em vermelho.
ela ia tranqüila e atordoada,
e transformou-se em
vermelho.
num segundo ela era
todo o vermelho que
se via na avenida.
no asfalto quente,
em rostos boquiabertos,
em pára-brisas,
em um motor, em rodas.
agora ela era feita ora
de uma pasta vermelha ora
de um líquido vermelho.
ela se espalhou pela cidade,
oxidou-se em postes metálicos,
misturou-se com secreções oculares,
infiltrou-se nas águas do esgoto, quando a água jorrou
no asfalto.
o primeiro que ficou feliz foi
o cachorro que degustou um pouco daquela pasta
vermelha em que ela havia se transformado.
em pouco tempo, ela estava circulando pela cidade
nos bicos das pombas, nas línguas dos cães, nos olhos dos velhos.
ela estava lá caminhando e
transformou-se em vermelho.
sexta-feira, outubro 12, 2007
diariamente uma mente velha transforma seu legado
domingo, outubro 07, 2007
sábado, setembro 22, 2007
o fim da noite
e já não há mais tantas forças.
o estômago dói. o intestino não funciona.
a gengiva sangra. a coluna dolorida e torta.
o joelho moído. os olhos ardendo.
e o cérebro continua sempre dando defeitos. talvez agora mais doentios.
o fim
sexta-feira, setembro 21, 2007
eu acho que eu já tive um amor...
o que ela sonhava era os meus sonhos e assim íamos vivendo em paz.
nosso lar
em nosso lar sempre houve alegria.
e eu vivi tão contente.
como contente ao teu lado estou.
tive sim, mas comparar com o teu amor, seria o fim.
então vou calar.
pois não pretendo, amor, te magoar.
pois não pretendo, amor, te magoar."
o amor está em mim. como não poderia estar? podendo. mas ele inexplicavelmente está em mim. e inexplicavelmente ele é uma construção coletiva. logo ele pode ser o mesmo sentimento que você, do outro lado desta rede de relações, sente. mas ele pode ser algo incompreensível para quem não mais está envolvido em uma rede de relações. ele pode ser vivido por uma pessoa só, por duas, ou por várias. ele pode ser esperado por uns, entendido por outros ou incessantemente buscado por mais outros. ele pode também simplesmente não ser inteligível para muitos. e passar desapercebido. eu amo. não sei explicar como. eu amo e sou capaz de não mais procurar quem eu amo, caso a pessoa esteja precisando de estar só. eu amo e sou capaz de remoer amores passados. eu amo e sou capaz de não mais me dedicar a nada. eu amo e sou capaz de escolher a vida e continuar aporrinhado este mundo ao invés de me matar. há muito tempo eu preferi a tolice de viver. desde então eu perturbo o mundo com as várias maneiras de pensar o próprio mundo. não sou capaz de amar todo mundo deste mundo. mas sou capaz de tratar aquilo que eu odeio com um abraço, com um afeto. justamente para corromper as escolhas "naturais" de nossas sociedades. também posso cuspir em pratos depois que a refeição terminou. sim, nunca disse que não sou estúpido. mas isso é outro caso. ou "caos" aqui é outro. (é caos mesmo) amores podem surgir de um aperto de mão. ou só depois de anos de convivência. mas há amores e amores. há tempos que não participo da construção de amores. eu presenciei realizações amorosas, como a participação política de estudantes na universidade. mas não participei dessa realização. senti um amor grande por algumas pessoas libertárias, mas não criei nenhuma espécie de amor entre nós. logo podemos amar, sem nos relacionar também. eu não vou chegar ao ponto de amar nenhum bush, ou fidel. os amores também têm limites. mas será que eles não são amados por ninguém? eu até gostaria que não. mas eles são seres humanos que construíram suas relações ao longo de suas vidas. e em algum momento deve ter havido amor. fidel em suas lutas e bush... er... e bush... e bush quando sua mãe o pariu. ah... o amor é uma construção, como já disse. logo o que é amor para alguém que vive o dia inteiro sob pressão de ser atacado por um policial durante toda madrugada é diferente do amor para alguém que vive no conforto de seu apartamento amparado por um copo de leite quente que a mamãe preparou. será que nós nos amamos realmente? bom, eu já fugi do intuito inicial, então fico por aqui. em pedaços. talvez esses pedaços possam ser completos.