às vezes arrumo uma pensação longa e dolorida. que fica aqui transitando por entre diferentes axônios e dentritos. velejando de sinapse em sinapse por todo meu corpo fazendo-me ora sentir dor, ora sono. por vezes ela esmaga, comprime a massa cinzenta, o que me deixa atordoado. é tanta pressão que o olho parece que vai pular pra fora. chega a ser engraçado a percepção de tal fato. engraçado e triste. mas o tomo como provocações. tal como as que costumo fazer. aliás, o que venho fazendo é provocar a mim mesmo. ou antes, meu corpo, ou minha matéria completa: corpo e alma. ambos, desde o início, criaram-se, estimularam-se, reformularam-se, cortaram-se, fundiram-se e se fizeram crescer. claro que não na nessa ordem, terminando numa espécie de topo ou fim da linha. a relação entre um e outro é bem mais dinâmica. diria que quase como que irmãos siameses capazes de se desenvolver autonomamente, diferentemente, mas sempre conectados, de alguma forma - qualquer que seja - sempre juntos, influenciando-se. mas mais do que serem siameses, corpo e alma tornaram-se siameses. em determinado ponto do desenvolvimento moral ambos tomaram forma, fundiram-se e tornaram-se irmãos. antes, talvez, o que existira era um monte de massa amorfa em movimento. o fato é, que além de serem siameses - que é uma definição porca, mas o mais próximo do que ora apresento - corpo e alma são relações de mutualismo, predatismo, parasitismo, colonialismo, comensalismo, amensalismo, sinfilia e canibalismo. relações complexas de níveis vários que interagem entre si. e como disse, venho provocando tudo isso: corpo e alma provocando corpo e alma. tudo transforma-se em uma arena de tolos, onde fascismos digladiam entre si, cortando suas cabeças e as dos libertarismos. uma peça de teatro onde sonhos se realizam, se concretizam. como uma sala de cinema onde risos gargalham a morte de 'zés' e choram a morte de cães. uma completa balbúrdia bem ordenada. quase sempre as polaridades ficam evidentes, vez ou outra a coisa explode e todo o campo magnético torna-se neutro por instantes seculares. quando percebo que a pensação dói demais, e que não dá para ficar na cama, estimulo as positividades e as negatividades, com intuito de construir algo - lembrando que a desconstrução é uma forma de construir - libertador, construir outras fronteiras. corpo e alma perguntam-se: o que estamos ajudando a fazer de nós mesmos? o que queremos para nós? numa tentativa de sair do isolacionismo cotidiano, corpo e alma procuram inserir tais questionamentos para o âmbito do coletivo. o que estamos ajudando a fazer do(s) que está(ão) ao nosso redor? ambos buscam, em pequenos atos, caminhos possíveis para re-sentir os benefícios de uma outra pensação, profunda, mas leve e serena. e que pode ser longa, se a matéria completa sempre for capaz de voltar a si mesma propondo-se re-formular esses problemas. abrindo-se para a dor, aprendendo a dialogar com ela, estabelecendo uma relação de força na qual ela não pode sair vitoriosa sob pretexto de redenção do corpo e alma. pois se assim for, as embarcações da pensação longa e dolorida irão tomar como posse corpo e alma por inteiro, e isso não pode ser aceitável.
Quarta-feira, Abril 29, 2009
Quinta-feira, Abril 09, 2009
de tempestades e clarões
uma tarde comum. ela adentrara a mata ainda existente em meio aos prédios escolares do pequeno campus universitário, como usualmente fazia. cortar caminho, por vezes, é mais interessante. ainda mais quando o atalho é constituído por sombras de árvores e por cheiros de ares não-urbanos. o dia brilhava. mas haviam nuvens cinzas querendo compartilhar os espaços disponíveis naquela região atmosférica. elas concentravam-se logo atrás da mata. articulando-se. dialogando sobre a melhor hora de esvaziarem-se. o debate aberto entre iguais logo virou uma ensurdecedora campanha eleitoral. cada hora uma falava mais alto que a outra. e tão logo isso aconteceu, duas grandes nuvens, para se fazerem ouvir, invocaram os maiores acessores daquele tempo: os ventos. de um lado havia um vento defendendo a calmaria e a dispersão no espaço de todas as nuvens, multiplicando as possibilidades de uma maior distribuição do espaço supralunar: questão de dissolução de fronteiras. de outro a defesa era de uma rápida mobilização e concentração de forças para melhor conquistar o pequeno espaço em disputa. as pequenas nuvens se associariam às grandes formando uma imensa e única massa capaz de dominar toda a região: questão de fortalecimento das fronteiras.
ao entrar na mata essas contendas começaram a dar as caras. e a força bruta havia acabado de ser utilizada. a mudança foi rápida e brusca. ela já estava dentro da mata e a chuva desabou sobre as árvores que lhe davam sombra. apressou o passo. começou a correr. mais adiante um raio surgiu clareando tudo em sua volta. de forma que nada mais podia ver. ela caiu. estava sem sentidos. ao se levantar a chuva já havia ido embora. mas deixou suas marcas no solo. seguiu adiante, acreditando já ter perdido seus compromissos. caminhou sempre em frente. cinco minutos se passaram e percebeu que havia algo errado. o caminho não acabava. e nada lhe parecia mais como antes. correu. sempre nos limites do caminho. mas de nada adiantava. ela sentia-se vigiada. percebeu que outros seres também corriam paralelamente à sua linha de corrida. de repente escorregou e desceu barranco abaixo.
sua queda espantou um grupo de amigos que se concentravam ao redor de um banquete. as pessoas voltaram curiosas para ver aquele corpo caído. gritaram ao se olharem! mais correria. agora dispersa e sem direção predeterminada. o tropeço veio rápido. ela não estava acostumada a correr em matas fechadas. pensou consigo que estava ficando louca. "o que tem demais encontrar um bando de jovens estranhamente vestidos, fazendo um pic nic? eles deviam estar bolando algum, ou coisa parecida". riu de si. levantou e tentou encontrar a antiga trilha.
algum tempo depois ela cansou-se e sentou sua bunda num galho caído. mas alguém a havia seguido. tentou uma aproximação amigável. ela se armou! a comunicação foi difícil! os dois ficavam grunindo palavras incompreensíveis um para o outro. acabaram por manter uma relação por gestos. demorou muito para que esses gestos fizessem um mínimo de sentido. se ela não percebesse na face do outro que sua vontade era um diálogo, dificilmente as coisas se dariam como se deram. ambos acharam muito estranho encontrar com uma pessoa de outra língua. logo ali, perto de suas atividades cotidianas. "deve ser visitante de outro país", pensaram. mas logo ela percebeu que estava em outro lugar. que a mata era maior do que o normal, e que não era possível encontrar todos os aparatos técnicos da comunidade de seu novo interlocutor tão porto do campus. não sabia se estava sonhando, se havia enlouquecido, se havia dormido tanto a ponto de não ver o tempo passar, ou se o passado viera até ela e a tinha engolido, envolvendo-a em sua totatlidade.
reconhecendo certos sinais, acreditou ainda estar em um espaço de tempo relativamente perto de sua vida pré-tempestade. mas ficou intrigada pois não via carros destruídos, ou prédios altos. tampouco uma organização comparada às sociedades que já estudara. nunca tinha ouvido falar sobre alguma sociedade em que a coletividade e a individualidade andavam lado a lado. em que as decisões eram tomadas em conjunto e por quem quisesse tomar parte na grande assembléia que se dispunha a resolver seus problemas. ela chegou a falar certos conceitos que tinha conhecimento, mas nada conseguiu tirar das reações dos seus novos companheiros. a organização espacial daquela sociedade era algo que nunca havia pensado. haviam famílias enormes, mas cujo papel centralizador não era o pai ou a mãe, mas a própria solidariedade. a produção alimentícia era coletiva e tomava uma hora diária de cada um. mas esse "tempo de horas" não existia por lá. o tempo era medido sob outra lógica. existia o tempo de trabalho: contado pelo cansaço, suor e necessidade. o cálculo dessas três variáveis geralmente correspondia a uma hora diária do tempo pré-tempestade. as outras partes dos dias e noites eram aproveitadas pela livre vontade de criação: as pessoas expressavam seus sentimentos e desejos com esculturas, música, poesias e outras escrituras. os problemas de ordem organizacional tinham sua vez em reuniões para resolver contendas como: conflitos, escassez de comida, de material de sociabilidade, de utilização do espaço (que era sempre público, nunca privado. o que quer dizer que não pertencia nem a um estado, nem a qualquer pessoa comum). a festa era uma prática cotidiana. por isso a produção de pratos e bebidas tomavam sempre um tempo maior e mais coletivo. o revezamento no fogão era constante. assim, todos brincavam e produziam materiais para a brincadeira.
sua chegada, apesar de levantar uma pequena crise sobre a organização interna, foi vista com bons olhos. os participantes da assembléia se viram na necessidade de realizar uma reflexão sobre a questão da comunicação entre diferentes línguas, mas nada que não tenha sido rapidamente colocado em prática. as crises eram frequentes e as soluções, sempre sensatas e sugeridas no seio do debate, eram logo colocadas em prática. assim, ela foi acolhida com alegria e solidariedade. convidaram-na para participar da preparação da festa noturna: colheita de hortaliças, fermentação do álcool e invenção de danças e performances corporais.
ela ficou maravilhada! acabou entrando em transe durante a festa. nunca havia sentido tanta felicidade, tanto prazer, tanto êxtase em um só momento. seu corpo estava lado a lado de sua alma. e nada parecia tão real e tão mágico ao mesmo tempo. a produção de algo tão prazeroso a fez sentir que aquela sociedade buscava colocar em prática a vida plena da alma e do corpo. ela, então, caiu num amontoado macio de pano que era usado para os repousos. de olhos fechados ainda podia sentir os ritmos dos prazeres da festa. acordou com uma chuva que caia calmamente, mas firme. levantou-se e se percebeu no mesmo caminho que usava para atravessar a mata. levantou-se e compreendeu que estivera ali desde o momento do clarão. olhou ao seu redor e percebeu que havia uma árvore de porte médio com vestígios de fogo. "havia sonhado", pensou. seguiu até o fim da trilha, olhou para trás e sentiu um aperto e seu peito. angustiada, colocou a mão em seu colo e sentiu um pingente, que antes não existia ali. olhou-o com ternura e carinho. dezenas de músculos se moveram e sua face e um sorriso surgiu. sentiu-se forte e com a certeza de que podia fazer de si uma vida plena e capaz de, como seus amigos efêmeros, realizar a fruição das necessidades de seu corpo e sua alma. preferiu, entretanto, seguir minando o mundo em que vive a partir da própria lógica desse mundo, sonhando com a próxima visita aos seus amigos pós-tempestade.
ao entrar na mata essas contendas começaram a dar as caras. e a força bruta havia acabado de ser utilizada. a mudança foi rápida e brusca. ela já estava dentro da mata e a chuva desabou sobre as árvores que lhe davam sombra. apressou o passo. começou a correr. mais adiante um raio surgiu clareando tudo em sua volta. de forma que nada mais podia ver. ela caiu. estava sem sentidos. ao se levantar a chuva já havia ido embora. mas deixou suas marcas no solo. seguiu adiante, acreditando já ter perdido seus compromissos. caminhou sempre em frente. cinco minutos se passaram e percebeu que havia algo errado. o caminho não acabava. e nada lhe parecia mais como antes. correu. sempre nos limites do caminho. mas de nada adiantava. ela sentia-se vigiada. percebeu que outros seres também corriam paralelamente à sua linha de corrida. de repente escorregou e desceu barranco abaixo.
sua queda espantou um grupo de amigos que se concentravam ao redor de um banquete. as pessoas voltaram curiosas para ver aquele corpo caído. gritaram ao se olharem! mais correria. agora dispersa e sem direção predeterminada. o tropeço veio rápido. ela não estava acostumada a correr em matas fechadas. pensou consigo que estava ficando louca. "o que tem demais encontrar um bando de jovens estranhamente vestidos, fazendo um pic nic? eles deviam estar bolando algum, ou coisa parecida". riu de si. levantou e tentou encontrar a antiga trilha.
algum tempo depois ela cansou-se e sentou sua bunda num galho caído. mas alguém a havia seguido. tentou uma aproximação amigável. ela se armou! a comunicação foi difícil! os dois ficavam grunindo palavras incompreensíveis um para o outro. acabaram por manter uma relação por gestos. demorou muito para que esses gestos fizessem um mínimo de sentido. se ela não percebesse na face do outro que sua vontade era um diálogo, dificilmente as coisas se dariam como se deram. ambos acharam muito estranho encontrar com uma pessoa de outra língua. logo ali, perto de suas atividades cotidianas. "deve ser visitante de outro país", pensaram. mas logo ela percebeu que estava em outro lugar. que a mata era maior do que o normal, e que não era possível encontrar todos os aparatos técnicos da comunidade de seu novo interlocutor tão porto do campus. não sabia se estava sonhando, se havia enlouquecido, se havia dormido tanto a ponto de não ver o tempo passar, ou se o passado viera até ela e a tinha engolido, envolvendo-a em sua totatlidade.
reconhecendo certos sinais, acreditou ainda estar em um espaço de tempo relativamente perto de sua vida pré-tempestade. mas ficou intrigada pois não via carros destruídos, ou prédios altos. tampouco uma organização comparada às sociedades que já estudara. nunca tinha ouvido falar sobre alguma sociedade em que a coletividade e a individualidade andavam lado a lado. em que as decisões eram tomadas em conjunto e por quem quisesse tomar parte na grande assembléia que se dispunha a resolver seus problemas. ela chegou a falar certos conceitos que tinha conhecimento, mas nada conseguiu tirar das reações dos seus novos companheiros. a organização espacial daquela sociedade era algo que nunca havia pensado. haviam famílias enormes, mas cujo papel centralizador não era o pai ou a mãe, mas a própria solidariedade. a produção alimentícia era coletiva e tomava uma hora diária de cada um. mas esse "tempo de horas" não existia por lá. o tempo era medido sob outra lógica. existia o tempo de trabalho: contado pelo cansaço, suor e necessidade. o cálculo dessas três variáveis geralmente correspondia a uma hora diária do tempo pré-tempestade. as outras partes dos dias e noites eram aproveitadas pela livre vontade de criação: as pessoas expressavam seus sentimentos e desejos com esculturas, música, poesias e outras escrituras. os problemas de ordem organizacional tinham sua vez em reuniões para resolver contendas como: conflitos, escassez de comida, de material de sociabilidade, de utilização do espaço (que era sempre público, nunca privado. o que quer dizer que não pertencia nem a um estado, nem a qualquer pessoa comum). a festa era uma prática cotidiana. por isso a produção de pratos e bebidas tomavam sempre um tempo maior e mais coletivo. o revezamento no fogão era constante. assim, todos brincavam e produziam materiais para a brincadeira.
sua chegada, apesar de levantar uma pequena crise sobre a organização interna, foi vista com bons olhos. os participantes da assembléia se viram na necessidade de realizar uma reflexão sobre a questão da comunicação entre diferentes línguas, mas nada que não tenha sido rapidamente colocado em prática. as crises eram frequentes e as soluções, sempre sensatas e sugeridas no seio do debate, eram logo colocadas em prática. assim, ela foi acolhida com alegria e solidariedade. convidaram-na para participar da preparação da festa noturna: colheita de hortaliças, fermentação do álcool e invenção de danças e performances corporais.
ela ficou maravilhada! acabou entrando em transe durante a festa. nunca havia sentido tanta felicidade, tanto prazer, tanto êxtase em um só momento. seu corpo estava lado a lado de sua alma. e nada parecia tão real e tão mágico ao mesmo tempo. a produção de algo tão prazeroso a fez sentir que aquela sociedade buscava colocar em prática a vida plena da alma e do corpo. ela, então, caiu num amontoado macio de pano que era usado para os repousos. de olhos fechados ainda podia sentir os ritmos dos prazeres da festa. acordou com uma chuva que caia calmamente, mas firme. levantou-se e se percebeu no mesmo caminho que usava para atravessar a mata. levantou-se e compreendeu que estivera ali desde o momento do clarão. olhou ao seu redor e percebeu que havia uma árvore de porte médio com vestígios de fogo. "havia sonhado", pensou. seguiu até o fim da trilha, olhou para trás e sentiu um aperto e seu peito. angustiada, colocou a mão em seu colo e sentiu um pingente, que antes não existia ali. olhou-o com ternura e carinho. dezenas de músculos se moveram e sua face e um sorriso surgiu. sentiu-se forte e com a certeza de que podia fazer de si uma vida plena e capaz de, como seus amigos efêmeros, realizar a fruição das necessidades de seu corpo e sua alma. preferiu, entretanto, seguir minando o mundo em que vive a partir da própria lógica desse mundo, sonhando com a próxima visita aos seus amigos pós-tempestade.
Terça-feira, Março 17, 2009
confissões de uma criança. ou quando me vestia de mulher
uma criança. aos 14. um diálogo. uma inquietação.
"mas se a pessoa coloca-se a dúvida se ela é ou não. ela já é", disse sua amiga.
a criança se cala. se põe a pensar. "não haveria outra forma de colocar a questão? seria essa a única maneira de compreender a situação? ou melhor, a única forma possível de imaginar essas relações? ser ou não ser? e se o caso, ou ainda, o ponto central do problema fosse outro? e se fosse do verbo estar?" os franceses não captariam logo a diferença. mas ela mudaria todo o jogo. se, ao invés, de 'ser' a pessoa 'estivesse' em tal ou tal posição, com tal ou tal disposição, de tal ou tal maneira, as coisas teriam aí uma outra perspectiva. os pontos de fuga poderiam multiplicar-se. e as centelhas espalhar-se-iam à deriva pelos espaços dos platôs, em constante interação. "a coisa não poderia ser tão fechada assim", ele pensava. se assim fosse, ele seria sempre um entra e sai de 'seres', que desapareceriam, ou cristarizariam em sua imagem, em seu corpo. não era isso que ele 'era'. se tivesse que usar o verbo ser, ele optaria por introduzí-lo em uma única proposição: sou uma constante etapa de 'estâncias', um colóquio infinito de 'estares' em relação aos territórios que ocupo, conquisto, reformo, transpasso, ignoro, desfaço, construo e abandono.
se 'tudo' tomasse parte desse infinito diálogo, logo teria de assumir que 'nada' faria parte dele, e tão logo pronunciasse essas palavras ele seria tudo. e o paradoxo 35 estaria, aí, em gestação.
mas a proposta não era ser tudo, ou nada. tampouco estar em tudo. mas, pelo contrário, estar em tudo, todo e qualquer lugar que lhe fosse possível. em lugares e espaços negados, desperdiçados e inutilizados. becos e matos despercebidos seriam alvo de seus estares. corpos nus e cobertos, fechados ou abertos, furados, vazados, coloridos, sujos ou diagramados estariam consigo, em si, e transpassando-o. corpos à deriva, como o seu, inertes, como de sua amiga, seriam as locações de suas estadias, de seus sonhos e planos, de suas experiências e ações. pouco importando a condição dos seres e como eles conduziriam suas vidas. o problema seria menos 'como definir-se nesse mundo desfigurado e opressor?', menos 'decida-se ou te devoro', menos 'é preciso acalmar o espírito nesses tempos sombrios e cruéis", do que "como construir múltiplas frentes de batalhas para a constante reestruturação das fronteiras e dos espaços estacionáveis e, por isso, rotativos. como construir platôs, salas de estares ambulantes, campos de descentralização, e, finalmente, uma ética plural?."
"mas se a pessoa coloca-se a dúvida se ela é ou não. ela já é", disse sua amiga.
a criança se cala. se põe a pensar. "não haveria outra forma de colocar a questão? seria essa a única maneira de compreender a situação? ou melhor, a única forma possível de imaginar essas relações? ser ou não ser? e se o caso, ou ainda, o ponto central do problema fosse outro? e se fosse do verbo estar?" os franceses não captariam logo a diferença. mas ela mudaria todo o jogo. se, ao invés, de 'ser' a pessoa 'estivesse' em tal ou tal posição, com tal ou tal disposição, de tal ou tal maneira, as coisas teriam aí uma outra perspectiva. os pontos de fuga poderiam multiplicar-se. e as centelhas espalhar-se-iam à deriva pelos espaços dos platôs, em constante interação. "a coisa não poderia ser tão fechada assim", ele pensava. se assim fosse, ele seria sempre um entra e sai de 'seres', que desapareceriam, ou cristarizariam em sua imagem, em seu corpo. não era isso que ele 'era'. se tivesse que usar o verbo ser, ele optaria por introduzí-lo em uma única proposição: sou uma constante etapa de 'estâncias', um colóquio infinito de 'estares' em relação aos territórios que ocupo, conquisto, reformo, transpasso, ignoro, desfaço, construo e abandono.
se 'tudo' tomasse parte desse infinito diálogo, logo teria de assumir que 'nada' faria parte dele, e tão logo pronunciasse essas palavras ele seria tudo. e o paradoxo 35 estaria, aí, em gestação.
mas a proposta não era ser tudo, ou nada. tampouco estar em tudo. mas, pelo contrário, estar em tudo, todo e qualquer lugar que lhe fosse possível. em lugares e espaços negados, desperdiçados e inutilizados. becos e matos despercebidos seriam alvo de seus estares. corpos nus e cobertos, fechados ou abertos, furados, vazados, coloridos, sujos ou diagramados estariam consigo, em si, e transpassando-o. corpos à deriva, como o seu, inertes, como de sua amiga, seriam as locações de suas estadias, de seus sonhos e planos, de suas experiências e ações. pouco importando a condição dos seres e como eles conduziriam suas vidas. o problema seria menos 'como definir-se nesse mundo desfigurado e opressor?', menos 'decida-se ou te devoro', menos 'é preciso acalmar o espírito nesses tempos sombrios e cruéis", do que "como construir múltiplas frentes de batalhas para a constante reestruturação das fronteiras e dos espaços estacionáveis e, por isso, rotativos. como construir platôs, salas de estares ambulantes, campos de descentralização, e, finalmente, uma ética plural?."
Sábado, Fevereiro 07, 2009
de carteiras e sapatos
pronto! já peguei o terno do meu irmão. o cabra viajou e deixou a nota da lavanderia para que eu pudesse pegar o dito. peguei. antes passei uma hora procurando minha carteira: 'onde estará aquela sacana? debaixo da cama, no sofá, dentro dos armários, em meio aos livros, no banheiro, junto às roupas para lavar, dentro da máquina?' onde estaria a coisa maldita que proteje documentos e papéis, mais papéis inúteis do que úteis, mas, por vezes tornados necessários. passados sessenta minutos, achei-a no primeiro local procurado. grande começo! hora de partir em busca do terno lavado a seco. foi um suor só. poderiam até me acusar de comparsa da chuva, com tanto líquido esguichando de meus poros. todo aquele sol quente na minha cabeça, que forçou meus aovéolos a trabalharem mais rápido, e meu sangue, concentrado em minhas pernas, a voltar rápido para o coração, faltando-me o ar. mas pronto, peguei, paguei. voltei enchardo de suor, mas o serviço miserável estava feito. agora só faltava provar. bom, a calça é apertada, mas é só para uma noite, a gente faz um sacrifício. o casaco até que ficou na pinta. menos mal. olho pro pé e pronto! vejo-o cabeludo, colorido, e branco. falta-me o sapato. 'caramba! o sapato! preveni-me, pedi a nota da lavanderia com antecedência, e esqueci da porra do sapato. tio, tu calça quanto?' 39. 'pô, não vai caber. será que rola algo na tua casa?' ele foi ver. fico desesperado vasculhando o guarda roupa. bom, claro que não há sapato no meu guarda-roupa. pra que diabos eu iria usar um sapato? "em dias como esses, idiota!" pô, eu sei, mas eu não uso, não tenho, não quero ter. na casa do meu tio fui recebido por latidos estridentes. como eu adoro cachorros.! o bicho ficou me enrrabando no meio da sala, fornicando com minha perna e cheirando minhas bolas. legal! daqui a pouco fico todo molhadinho! entro na casa e calço o primeiro pé do sapato! caramba! o troço ia fuder meu pé, mas mesmo assim obriguei-o a encaixar-se em minha chulapa. a dor foi grande, mas pelo menos eu tentei! é preciso várias tentativas se quiser arrumar um sapato emprestado. bom, depois dessa tromba d'água porreta, que está caindo agora, sairei para comprar. quem sabe, não rola uns baratos por conta da enchente? ou até mesmo alguns espalhados pela avenida! quem sabe?
ô menino, disse minha tia, tenta esse aqui! o troço entrou, e fez meus sustentáculos latejarem.
minha expressão foi justamente o contrário! 'claro que serviu tia! nossa! muito obrigado!' "tem certeza que não tá apertando?" 'claro! absoluta!' o que eu poderia fazer? era minha última chance antes de gastar uma nota com uma coisa que não iria usar! levantei-me e arrebentei meu côco no lustre baixo do quarto de meu primo. vi estrelas. legal! agora tinha dores em duas extremidades do corpo. uma para esquecer a outra! os chineses são bons nessas experiências! que idéia boa essa, não? "e a gravata,? leva essa aqui!" ela parecia seda de cuecas, como disse minha avó, mas era a melhor do mundo naquele momento. faltava-me achar o outro pé da minha meia. ótima busca. roupas para o chão, na cama, viradas e reviradas e nada. é hora de dobrar as peças espalhadas e encarar o sapato com meias grossas. mas será que minha vó não teria uma meia fina? tem meia-calça! disse ela. bom, pelo menos ninguém verá minhas pernas, não haverá muito mal. mas ela encontrou uma soquete antes de decidir-me pela LOBA. beleza, mais uma dívida: pagar a meia destruída da vovó. no fim, tudo certo. vestido, bati com os dedos com toda força no batente da porta, para esquecer-me do pé e segui para a festa. quinze minutos depois da entrada triunfal eu já estava sem paletó, gravata, sapato e com as mangas arriadas, sorrindo feliz para os noivos que passaram pedindo votos dos convidados. valeu o esforço: a noite foi boa junto à minha amada, especialmente após a chuva que tomamos na saída da festa. de uma coisa eu sei: tenho que pensar melhor sobre a idéia de comprar um sapato.
ô menino, disse minha tia, tenta esse aqui! o troço entrou, e fez meus sustentáculos latejarem.
minha expressão foi justamente o contrário! 'claro que serviu tia! nossa! muito obrigado!' "tem certeza que não tá apertando?" 'claro! absoluta!' o que eu poderia fazer? era minha última chance antes de gastar uma nota com uma coisa que não iria usar! levantei-me e arrebentei meu côco no lustre baixo do quarto de meu primo. vi estrelas. legal! agora tinha dores em duas extremidades do corpo. uma para esquecer a outra! os chineses são bons nessas experiências! que idéia boa essa, não? "e a gravata,? leva essa aqui!" ela parecia seda de cuecas, como disse minha avó, mas era a melhor do mundo naquele momento. faltava-me achar o outro pé da minha meia. ótima busca. roupas para o chão, na cama, viradas e reviradas e nada. é hora de dobrar as peças espalhadas e encarar o sapato com meias grossas. mas será que minha vó não teria uma meia fina? tem meia-calça! disse ela. bom, pelo menos ninguém verá minhas pernas, não haverá muito mal. mas ela encontrou uma soquete antes de decidir-me pela LOBA. beleza, mais uma dívida: pagar a meia destruída da vovó. no fim, tudo certo. vestido, bati com os dedos com toda força no batente da porta, para esquecer-me do pé e segui para a festa. quinze minutos depois da entrada triunfal eu já estava sem paletó, gravata, sapato e com as mangas arriadas, sorrindo feliz para os noivos que passaram pedindo votos dos convidados. valeu o esforço: a noite foi boa junto à minha amada, especialmente após a chuva que tomamos na saída da festa. de uma coisa eu sei: tenho que pensar melhor sobre a idéia de comprar um sapato.
Terça-feira, Janeiro 20, 2009
pirofagiando em segredo. ou. tão distante da tabacaria que parece próximo dum platô.
hey, eu vou dizer o que eu penso.
mas não pedi sua opinião, jorge.
direi mesmo assim. eu acho isso tudo uma bela merda. uma bela montanha de merda mole.
droga, meu cigarro apagou e eu tenho que ficar te ouvindo dizer besteiras, jorge!
é sério, cara! toda essa baboseira de esperança de um mundo melhor com um presidente negro. o porra do cara é presidente, cê entendeu? presidente. que porra vai mudar, cara?
jorge, as coisas não são assim, as pessoas precisam dessa merda toda. senão, como elas vão sair à noite para pagar pra caras e mulheres lhes darem aquela chupada, que seus maridos e esposas não podem dar?
você é um estúpido, cara! ninguém precisa de presidente nenhum. nem de chupada gostosa. essa merda toda é uma bela sacanagem sustentada por seu alcoolismo.
eu não coloco sua mãe no meio, então respeite minha relação com o álcool, jorge.
ok, tu fica aí enchendo a cabeça de cachaça, enquanto teus filhos comem carangueiros podres que se alimentam da merda produzida na cidade. enquanto eu fico aqui, provando para o mundo que eu não preciso de presidente de porra nenhuma.
jorge, tu tá berrando no meu ouvido! eu tô do teu lado, sacana!
isso! fica fazendo posinha de delicado, seu merda!
caralho, jorge, a rua inteira tá querendo te dar um sopapo!
eu pego é todo mundo no bondage, cara! faço uns enemas e tá limpo!
não comece com suas coisas de tortura!
tortura? porra, os cara te fazem pagar um imposto sobre a tua casa, uma invenção mais idiota e antiga, e tu vem falar que gozar com um pouco de sangue é tortura? tu trabalha como a velha a fiar, sem parar para pensar no que fazes de ti, e dar umazinha que é tortura?
não irrita, jorge, eu tô sem saco, hoje!
porra! tu tá nessa de virar eunuco e nem me chama pra festa?! sacanagem, cara!
jorge, eu te soco hoje!
tu tem que parar de ser um cagalhão. tu fica aí sentado, sem fazer nada, enchendo a cara.
ah, vá se fuder!
é sério, cara! eu mesmo tô aí, tô aqui, tô até na internet! eu faço é muita coisa, cara! fico limpando cadeira com o cu, não.! vou pra luta é armado de palavras.
como que é isso?
bom, os caras começam a me bater e eu fico lá recitando Fernando Pessoa. os cara param de me bater para ouvir os poemas do cara. pô Fernando Pessoa é o cara!
e tu lá sabe um poema de Fernando Pessoa?
saber eu não sei não, mas decorei um, quer ver? : "eu sô é nada, nunca vô sê é nada, não posso querer sê é nada. da parte disso, tenho todo sonho do mundo. Hoje eu tô abobado, como que pensei e achei e esqueci. hoje eu tô é dividido entre a lealdade que devo à tabacaria da esquina, como coisa que é real de fora, e ao sentimendo de que tudo é sonho, como coisa que é real de dentro."
ô jorge, pára, cara!
mas eu tava terminando! ele é grande, mas eu decorei tudo. e quando eu falo as pessoas param de brigar e choram! primeiro elas riem, depois você vê toda a lágrima saindo dos olhos frios e vazios delas.
cê fala essas coisas pra polícia e ela não te bate mais, não?
não! eles ficam sensíveis! imagina, um revolucionário que não pega em armas e sabe de cor uma poesia de Fernando Pessoa!
cara, eu acho que tu precisa é parar com essa birita.
eu não bebo há três dias.
e esse cheiro de cachaça, jorge?
é que fez três dias e eu não aguentei. tomei umas. mas isso não faz de mim um mentiroso, cara! isso tudo é um monte de merda fedida e molinha. o pessoal lá de gaza não ganha muita coisa com esse presidente, não. aliás, nem tu. a não ser esperança de merda, de comprar mais merda.
jorge, mas tu tá um pessimista idiota, hein? que que tu sabe de gaza?
tô pessimista, não. eu creio em coisas boas, cara! essa é a diferença. eu penso em coisas boas. não fico lamentando: oh! meu querido governo cobra de mim e não me dá nada. não brinco com essa merda. minha merda é outra, cara. existe uma multiplicidade de merdas a serem formuladas. um sem-número de singularidades múltiplas. eu faço minha própria merda, cara.
ainda bem, né jorge?
é sério! eu corro atrás, e tudo mais.
mas tu chegou onde está como?
não venha me dizer que eu devo minha vida ao governo, cara! minha vida eu devo aos meus. aos que a fizeram ao meu lado. àqueles que estiveram juntos na minha caminhada, e não à essa merda toda.
de alguma forma você está aí por conta dessa merda toda, jorge.
eu sei.
então não sacaneia, jorge.
mas essa merda toda não precisa ser a merda que eu vou carregar até o fim da vida. então eu faço minha própria merda, cara! meu próprio caminho.
tu é um individualista doidão, jorge!
não! é aí que tu se engana, cara! eu sou eu, claro! mas eu também! sacou? também! sou muito mais. e minha merda é feita disso tudo!
tu tá meio esquisito hoje, jorge.
é que vi um filme estranho.
é mesmo? tu vendo filmes?
não encha o saco, cara. filmes também são essa merda toda, só que mais cheirosos. aliás, a coisa mais legal que tem por aí é a música, mas ela tá cheirando como você, cara!
eu vou dizer o que eu penso, jorge: nisso você tem um pouco de razão.
então, vê se pára de ficar sentado aí, seu merdinha. eu já estou por aí:
"e o universo me fez de novo sem ideal, sem esperança, e o dono da tabacaria olhô pra mim e sorriu."...
mas não pedi sua opinião, jorge.
direi mesmo assim. eu acho isso tudo uma bela merda. uma bela montanha de merda mole.
droga, meu cigarro apagou e eu tenho que ficar te ouvindo dizer besteiras, jorge!
é sério, cara! toda essa baboseira de esperança de um mundo melhor com um presidente negro. o porra do cara é presidente, cê entendeu? presidente. que porra vai mudar, cara?
jorge, as coisas não são assim, as pessoas precisam dessa merda toda. senão, como elas vão sair à noite para pagar pra caras e mulheres lhes darem aquela chupada, que seus maridos e esposas não podem dar?
você é um estúpido, cara! ninguém precisa de presidente nenhum. nem de chupada gostosa. essa merda toda é uma bela sacanagem sustentada por seu alcoolismo.
eu não coloco sua mãe no meio, então respeite minha relação com o álcool, jorge.
ok, tu fica aí enchendo a cabeça de cachaça, enquanto teus filhos comem carangueiros podres que se alimentam da merda produzida na cidade. enquanto eu fico aqui, provando para o mundo que eu não preciso de presidente de porra nenhuma.
jorge, tu tá berrando no meu ouvido! eu tô do teu lado, sacana!
isso! fica fazendo posinha de delicado, seu merda!
caralho, jorge, a rua inteira tá querendo te dar um sopapo!
eu pego é todo mundo no bondage, cara! faço uns enemas e tá limpo!
não comece com suas coisas de tortura!
tortura? porra, os cara te fazem pagar um imposto sobre a tua casa, uma invenção mais idiota e antiga, e tu vem falar que gozar com um pouco de sangue é tortura? tu trabalha como a velha a fiar, sem parar para pensar no que fazes de ti, e dar umazinha que é tortura?
não irrita, jorge, eu tô sem saco, hoje!
porra! tu tá nessa de virar eunuco e nem me chama pra festa?! sacanagem, cara!
jorge, eu te soco hoje!
tu tem que parar de ser um cagalhão. tu fica aí sentado, sem fazer nada, enchendo a cara.
ah, vá se fuder!
é sério, cara! eu mesmo tô aí, tô aqui, tô até na internet! eu faço é muita coisa, cara! fico limpando cadeira com o cu, não.! vou pra luta é armado de palavras.
como que é isso?
bom, os caras começam a me bater e eu fico lá recitando Fernando Pessoa. os cara param de me bater para ouvir os poemas do cara. pô Fernando Pessoa é o cara!
e tu lá sabe um poema de Fernando Pessoa?
saber eu não sei não, mas decorei um, quer ver? : "eu sô é nada, nunca vô sê é nada, não posso querer sê é nada. da parte disso, tenho todo sonho do mundo. Hoje eu tô abobado, como que pensei e achei e esqueci. hoje eu tô é dividido entre a lealdade que devo à tabacaria da esquina, como coisa que é real de fora, e ao sentimendo de que tudo é sonho, como coisa que é real de dentro."
ô jorge, pára, cara!
mas eu tava terminando! ele é grande, mas eu decorei tudo. e quando eu falo as pessoas param de brigar e choram! primeiro elas riem, depois você vê toda a lágrima saindo dos olhos frios e vazios delas.
cê fala essas coisas pra polícia e ela não te bate mais, não?
não! eles ficam sensíveis! imagina, um revolucionário que não pega em armas e sabe de cor uma poesia de Fernando Pessoa!
cara, eu acho que tu precisa é parar com essa birita.
eu não bebo há três dias.
e esse cheiro de cachaça, jorge?
é que fez três dias e eu não aguentei. tomei umas. mas isso não faz de mim um mentiroso, cara! isso tudo é um monte de merda fedida e molinha. o pessoal lá de gaza não ganha muita coisa com esse presidente, não. aliás, nem tu. a não ser esperança de merda, de comprar mais merda.
jorge, mas tu tá um pessimista idiota, hein? que que tu sabe de gaza?
tô pessimista, não. eu creio em coisas boas, cara! essa é a diferença. eu penso em coisas boas. não fico lamentando: oh! meu querido governo cobra de mim e não me dá nada. não brinco com essa merda. minha merda é outra, cara. existe uma multiplicidade de merdas a serem formuladas. um sem-número de singularidades múltiplas. eu faço minha própria merda, cara.
ainda bem, né jorge?
é sério! eu corro atrás, e tudo mais.
mas tu chegou onde está como?
não venha me dizer que eu devo minha vida ao governo, cara! minha vida eu devo aos meus. aos que a fizeram ao meu lado. àqueles que estiveram juntos na minha caminhada, e não à essa merda toda.
de alguma forma você está aí por conta dessa merda toda, jorge.
eu sei.
então não sacaneia, jorge.
mas essa merda toda não precisa ser a merda que eu vou carregar até o fim da vida. então eu faço minha própria merda, cara! meu próprio caminho.
tu é um individualista doidão, jorge!
não! é aí que tu se engana, cara! eu sou eu, claro! mas eu também! sacou? também! sou muito mais. e minha merda é feita disso tudo!
tu tá meio esquisito hoje, jorge.
é que vi um filme estranho.
é mesmo? tu vendo filmes?
não encha o saco, cara. filmes também são essa merda toda, só que mais cheirosos. aliás, a coisa mais legal que tem por aí é a música, mas ela tá cheirando como você, cara!
eu vou dizer o que eu penso, jorge: nisso você tem um pouco de razão.
então, vê se pára de ficar sentado aí, seu merdinha. eu já estou por aí:
"e o universo me fez de novo sem ideal, sem esperança, e o dono da tabacaria olhô pra mim e sorriu."...
Sábado, Novembro 15, 2008
conversação
Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer. WB
...mas acontece que uma realidade encontra a outra, o passado reclama o respeito aos seus títulos, o presente, a princípio, inclina-se diante da primazia e nobreza do passado, mas reclama e quer impor os seus próprios valores, pois o que vive tem sempre razão. Nem sempre nessa luta o presente vence o passado, ou aceita apenas aquilo que é vivo do passado; muitas vezes o passado derrota o presente e faz nascer um futuro alquebrado. O dever do historiador não é para com os mortos, nem o culto do passado pelo passado deve ser nosso princípio. É em nome do presente que julgamos o passado, pois não há passado puro e único, mas mutável como a história, de acordo com a visão interessada do presente. JR
Temos uma responsabilidade pelos fatos históricos em geral e pela crítica do abuso político-ideológico da históriaem particular. Eu costumava pensar que a profissão de historiador, ao contrário, digamos, da de físico nuclear, não pudesse, pelo menos, produzir danos. Agora sei que pode. EH
As relações da História com o Presente da História com a Vida e com a Ação têm sido tratadas por filósofos, pensadores e historiadores. É a História um poder ativo, que determine ou condicione o presente, que nos force ou nos sugira meios de ação, agens ou potente da vida? JR
O cronista que narra indiscriminadamente os acontecimentos, sem distinguir grandes e pequenos, leva com isso em conta a verdade de que nada do que jamais aconteceu pode ser dado por perdido para a história. Certamente, só à humanidade redimida cabe o passado em sua plenitude. Isso quer dizer: só à humanidade redimida o seu passado tornou-se citável em cada um dos seus momentos. Cada um dos momentos vividos por ela torna-se uma citation à l’ordre du jour – dia que é, justamente, o do juízo final. WB
Deus não é dos mortos, mas dos vivos, porque, para ele todos são vivos. A história também não é dos mortos, mas dos vivos, pois ela é a realidade presente, obrigatória para a consciência, frutífera para a experiência. A vida e a realidade são história, gerando passado e futuro. JR
A história universal pode atingir uma variedade maior. Por uma teoria das multiplicidades por elas mesmas, no ponto em que o múltiplo passa ao estado de substantivo. As multiplicidades são a própria realidade, e não supõem nenhuma unidade, não entram em nenhuma totalidade e tampouco remetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações são, ao contrário, processos que se produzem e aparecem nas multiplicidades. Os princípios característicos das multiplicidades concernem a seus elementos, que são singularidades; as suas relações, que são devires; a seus acontecimentos que são hecceidades (quer dizer, individuações sem sujeito); a seus espaços-tempos, que são espaços e tempos livres; a seu modelo de realização, que é o rizoma (por oposição ao modelo da árvore); aos vetores que as atravessam, e que constituem territórios e graus de desterritorialização. Em todo caso, a questão é: onde e como se faz tal encontro? GD&FG
...mas acontece que uma realidade encontra a outra, o passado reclama o respeito aos seus títulos, o presente, a princípio, inclina-se diante da primazia e nobreza do passado, mas reclama e quer impor os seus próprios valores, pois o que vive tem sempre razão. Nem sempre nessa luta o presente vence o passado, ou aceita apenas aquilo que é vivo do passado; muitas vezes o passado derrota o presente e faz nascer um futuro alquebrado. O dever do historiador não é para com os mortos, nem o culto do passado pelo passado deve ser nosso princípio. É em nome do presente que julgamos o passado, pois não há passado puro e único, mas mutável como a história, de acordo com a visão interessada do presente. JR
Temos uma responsabilidade pelos fatos históricos em geral e pela crítica do abuso político-ideológico da história
As relações da História com o Presente da História com a Vida e com a Ação têm sido tratadas por filósofos, pensadores e historiadores. É a História um poder ativo, que determine ou condicione o presente, que nos force ou nos sugira meios de ação, agens ou potente da vida? JR
O cronista que narra indiscriminadamente os acontecimentos, sem distinguir grandes e pequenos, leva com isso em conta a verdade de que nada do que jamais aconteceu pode ser dado por perdido para a história. Certamente, só à humanidade redimida cabe o passado em sua plenitude. Isso quer dizer: só à humanidade redimida o seu passado tornou-se citável em cada um dos seus momentos. Cada um dos momentos vividos por ela torna-se uma citation à l’ordre du jour – dia que é, justamente, o do juízo final. WB
Deus não é dos mortos, mas dos vivos, porque, para ele todos são vivos. A história também não é dos mortos, mas dos vivos, pois ela é a realidade presente, obrigatória para a consciência, frutífera para a experiência. A vida e a realidade são história, gerando passado e futuro. JR
A história universal pode atingir uma variedade maior. Por uma teoria das multiplicidades por elas mesmas, no ponto em que o múltiplo passa ao estado de substantivo. As multiplicidades são a própria realidade, e não supõem nenhuma unidade, não entram em nenhuma totalidade e tampouco remetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações são, ao contrário, processos que se produzem e aparecem nas multiplicidades. Os princípios característicos das multiplicidades concernem a seus elementos, que são singularidades; as suas relações, que são devires; a seus acontecimentos que são hecceidades (quer dizer, individuações sem sujeito); a seus espaços-tempos, que são espaços e tempos livres; a seu modelo de realização, que é o rizoma (por oposição ao modelo da árvore); aos vetores que as atravessam, e que constituem territórios e graus de desterritorialização. Em todo caso, a questão é: onde e como se faz tal encontro? GD&FG
Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008
uma chuva de granito ou a desconfiança do conceito de progresso.
ontem choveu demais! muito. mas muito! como há tempos eu não via chover. choveu até minúsculas pedrinhas d'água. coisa que eu não via desde pequeno. e de pequeno eu ouvia as pessoas sérias falarem sobre chuva de granito. que o granito tinha feito muitos estragos, que o granito isso, que o granito aquilo. até na televisão falavam sobre a chuva de granito, mas ela só me mostrava gelo, e granito, que era bom, nada. eu até pensei, em um pequeno espaço de tempo, que o granito se formava no céu e caía aí, de graça, para as pessoas usufruírem. e pensando bem, porque diabos aquele tanto de pessoas sérias, que queriam consumir os produtos da felicidade anunciados na tv, aqueles que limpavam as pias de granito da cozinha e dos banheiros, achavam ruim chover granito? olha que bom! chove granito e as pessoas não precisariam nem comprar... era só modelar as peças, juntando-as, mandar cortar, polir e suas lindas pias estariam prontas! era o que eu pensava. mas as pessoas sérias preferiam seus carros às pias de granito, eu acho. infelizmente, mais tarde, descobri que a chuva de granito era na verdade de granizo. e que o granito vinha de empresas controladas por pessoas sérias que exploravam as redondezas das montanhas mundo afora. ontem, na avenida silva lobo, o que caía era granizo. ainda bem. mas isso ainda me frustra.
Assinar:
Postagens (Atom)


